Dona Hetara, a caftina do protíbulo de Durango, administrava os gostos de seus clientes e a fortuna de suas pupilas. Não era uma dessas donas de bordel que só manejam o negócio de putas. Bem abusada dona Hetera. Muito esperta. Nem um pelo de tola. Ela dizia sempre: Di-ver-si-fi-car-se. E não só administrava uma garçonnière, mas uma escola de freiras onde dona Hetara, que era muito caridosa, mandava as damas envelhecidas vestir-se de religiosas e pretender que educavam as damas jovencinhas que procuravam marido. Porque no fundo não há puta que não aspire ao casamento. Faz-lhe mal que os homens não lhes digam "mulheres", mas "velhas". Ser "velha" é ser puta, traste, envoltura de tamal, panela de mole... Ser "mulher" é ser amante que pode chegar a ser esposa e mãe.
Extraído de "A VONTADE E A FORTUNA" de Carlos Fuentes tradução: Carlos Nougué
"Há quem confunda a alegria com a felicidade. A alegria não se parece com a felicidade, a não ser na medida em que um mar agitado se parece com um mar plácido. A água é a mesma, apenas isso. A alegria resulta de um entorpecimento do espírito, a felicidade de uma iluminação momentânea. O álcool pode levar-nos à alegria - ou um cigarro de liamba, ou um novo amor - porque nos obscurece temporariamente a inteligência. A alegria pode, pois, ser burra. A felicidade é outra coisa. Não ri às gargalhadas. Não se anuncia com fogo de artifício. Não faz estremecer estádios. Raras são as vezes em que nos apercebemos da felicidade no instante em que somos felizes."
Extraído de "Barroco Tropical", de José Eduardo Agualusa
O início da minha carreira em física de partículas elementares foi em um laboratório no Cern, em Genebra, onde tinha um acelerador de partículas que faz essas radiações. E eu pude fazer observações num detector chamado câmara de bolhas, que ainda existia na época, e que permite visualizar por efeito macroscópico de ampliação o caminho de uma partícula, permite identificar essas partículas, medir e calcular as suas características e depois saber o que acontece nessa região da constituição da matéria. Quando eu vi isso – para mim até então as partículas eram uma abstração –, quando de repente eu vi os perpasses que permitem saber que essas radiações têm efeitos materiais, foi um pouco o meu caminho de Damasco, como caminho da revelação para São Paulo. Só que a minha revelação não foi de Deus, mas da realidade íntima da matéria.
Afinal de contas, que idade nos pertence mais que a infância, na qual, verdadeiramente, dependemos dos outros? Tudo é mais longo na infância. As férias nos parecem deliciosamente eternas. Os horários de aula também. Embora sujeitos à escola e sobretudo à família, temos nessa época da vida mais liberdade ante o que nos amarra do que em qualquer outra. Isso se deve, me parece, a que a liberdade na infância é idêntica à imaginação, e, como nesta tudo é possível, a liberdade para ser algo mais que a família e algo mais que a escola voa mais alto e nos permite viver mais separados que nas idades em que temos de nos conformar para sobreviver, ajustar-nos aos ritmos da vida profissional e submeter-nos a regras herdadas e aceitas por outra espécie de conformismo geral. Éramos, quando crianças, magos sigulares. Seremos, quando adultos, rebanhos.
Trecho de "A Verdade e a Fortuna" de Carlos Fuentes Tradução de Carlos Nougué
Jamais provou uma iguaria, jamais degustou uma iguaria quem sempre a comeu com moderação. Assim se conhece talvez o prazer da comida, mas nunca a avidez por ela, o desvio do caminho plano do apetite, que leva à mata virgem da comezaina. É na comezaina, a saber, que estes dois se reúnem: a imoderação do desejo e a monotonia com que ele se sacia. Comer, isto significa antes de tudo: comer radicalmente. Não há dúvida de que isso alcança mais profudamente a coisa devorada que o prazer. Por exemplo, quando alguém dá uma dentada na mortadela como se fosse pão, se chafurda no melão como numa almofada, lambe caviar de papel farfalhante e sobre uma cuia de queijo Edam se esquece de tudo o mais que existe na Terra para comer.
- Defendes pretos, Atticus? - perguntei-lhe eu nessa mesma tarde.- Claro que sim. Não digas preto, Scout. É feio. - Mas`é o qu`toda a gente diz na escola. - Então, a partir de agora passa a ser toda a gente, menos uma pessoa... - Mas então, se não queres que cresça a falar desta maneira, por que é que me mandas p`ra escola?