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O AMOR É UM TRABALHO DIFÍCIL
“É lógico, num bordel há moças de todos os tipos, e ainda mais aqui, no deserto de Nevada, cuja monotonia, a mais árida do Meio-Oeste americano, tem de ser aliviada com determinados exotismos. Estão maquiando Sherry no backstage improvisado na parte de trás, junto ao antigo poço agora seco. Ela não confia no grande espelho emoldurado com lâmpadas que lhe deram e, como quando algum cliente chega de surpresa, recorre ao retrovisor de um Mustang já quase transformado em sucata. O sol e a neve foram comendo o carro desde que ali foi deixado por um homem que ela nunca voltou a ver. Chamava-se Pat, Pat Garret. Chegou numa tarde de novembro, com a última temperatura moderada, pediu uma moça, a mais jovem, e Sherry se apresentou. Pat tinha um hobby: colecionar fotografias achadas; qualquer uma servia, desde que mostrasse figuras humanas e fosse achada; viajava com uma pasta cheia. Estirados os dois na cama, ele lhe contou, enquanto olhava um ponto fixo na parede, que depois de ter trabalhado num banco em L. A., havia recebido uma herança inesperada, de modo que largou o emprego. Seu apego às fotografias vinha do banco, pelo fato de ver tanta gente; sempre imaginava como seria o rosto, o corpo dessas pessoas em outro contexto, para além do guichê, que também era como a moldura de uma fotografia. Mas, depois de receber a herança, seu outro vício, o jogo, havia levado o homem a perdê-la quase totalmente. Agora se dirigia ao Leste, a Nova York, em busca de mais fotografias, Aqui, no Oeste, sempre andamos às voltas com as paisagens, disse, Mas lá tudo são retratos. Sherry não soube o que dizer. Pat abriu a pasta e foi lhe dando as fotos. Ao desembaralhar um dos maços, Sherry encontrou o inequívoco rosto de sua mãe. Sorria agarrada a um homem que, entendeu, era o pai que nunca chegara a conhecer. Caiu sobre o peito de Pat e abraçou-o com força. A partir daí, ele ficou muitos dias mais, Sherry já não lhe cobrava, preparava-lhe a comida e os dois não saíam do quarto. Na noite em que Pat foi embora, o Mustang não pegou, mas ele conseguiu parar um caminhão que ia para o Kansas. De manhã, depois de descartar a hipótese de que ele houvesse caído no poço ou ido a Ely comprar cigarro, ela se pôs a esperá-lo até o anoitecer, com a vista fixa no último ponto divisável da us50. Quando não aguentou mais, começou a chorar, sentada no capô do Mustang. Retoca os lábios no retrovisor e a maquiadora avisa, Entramos no ar em um minuto! Nevada tv faz o especial Prostituição na Estrada. Aproximam o microfone e perguntam, De que você se sente mais orgulhosa, Sherry? O amor é um trabalho difícil, responde, amar é a coisa mais difícil que já fiz em toda a minha vida.”
trecho de "Nocilla Dream", de Agustín Fernández Mallo
Escrito por Júlio Cesar Góes às 20h55
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ATÉ O FIM DOS TEMPOS
Aqui devo esclarecer que tipo de ideia da morte morte me acometeu. Não foi a ideia da minha morte, a ideia de um dia - próximo ou remoto - vir a morrer. Juro pelo etreno céu da noite que semelhante nessecidade nunca me passou pela cabeça, e espero nunca precisar me ocupar dela. A ideia da minha morte: essa me deixa indiferente, alheio, está longe de me abalar. Duvido que uma pessoa sensata se dê o trabalho de pensar na própria morte. Não é da minha conta, dirá, minha morte não me interessa, pensar nela seria amesquinhar a vida, que pode ser grande quando grande a desejamos, seria traçar limites a que ela deveria se restringir voluntariamente. Um homem como eu - e não sou o único, ainda bem que sei disso - vive, trabalha e inicia a lida cotidiana pensando que, em nome do céu e de todos os justos, ela há de se prolongar, eterna e ininterruptamente, até o fim dos tempos. Trecho de A MORTE DO INIMIGO de Hans Keilson
Escrito por Júlio Cesar Góes às 09h44
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A LUA NO CINEMA
A lua foi ao cinema, passava um filme engraçado. Era a história de uma estrela que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas uma estrela bem pequena, dessas que, quando apagam, ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha, ninguém olhava pra ela, e toda a luz que ela tinha cabia numa janela.
A lua ficou tão triste com aquela história de amor, que até hoje a lua insiste: - Amanheça, por favor!
PAULO LEMINSKI
Escrito por Júlio Cesar Góes às 08h17
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NÃO O SONHO TALVEZ
sejas a breve recordação de um sonho de que alguém (talvez tu) acordou (não o sonho, mas a recordação dele), um sonho parado de que restam apenas imagens desfeitas, pressentimentos. Também eu não me lembro, também eu estou preso nos meus sentidos sem poder sair. Se pudesses ouvir, aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos, animais acossados e perdidos tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim, desamarraram-me de mim e agora só me lembro pelo lado de fora. Manuel António Pina, in "Atropelamento e Fuga"
Escrito por Júlio Cesar Góes às 08h31
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ESCLARECIDA
Não sei se dá para continuarmos amigas. Pensei muito sobre isso — ela nunca saberá quanto. Tentei uma última vez. Liguei para ela, um ano depois. Mas não gostei de como a conversa andou. O problema é que ela não é muito esclarecida. Ou melhor, ela não é esclarecida o bastante para mim. Ela tem quase cinquenta anos e não é mais esclarecida hoje, a meu ver, do que há vinte anos, quando nosso assunto principal eram os homens. Na época, não me incomodava que ela não fosse esclarecida, talvez porque eu mesma não fosse muito esclarecida. Acho que hoje sou mais esclarecida, e certamente mais do que ela, apesar de não ser muito esclarecido da minha parte dizer isso. Mas vou dizer assim mesmo. Estou disposta a adiar minha entrada no esclarecimento para poder dizer uma coisa dessas de uma amiga. Extraído do livro "TIPOS DE PERTURBAÇÃO - Ficções", de Lydia Davis
Escrito por Júlio Cesar Góes às 06h50
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VOCÊ ME ATROPELOU
"Rivoli deu marcha à ré e bateu em alguma coisa, e essa coisa deu um gritinho quase surdo. Ele saiu do carro, assustado, e foi ver o que tinha acontecido. Só depois de ouvir um vulto gemer já de joelhos no chão, entendeu que tinha atropelado alguém, e foi o que ela disse lá embaixo, num timbre de voz agudo e infantil, gemendo baixinho. "Você me atropelou". Mesmo no escuro ele viu o brilho dos olhos dela, olhando para cima, cercados de superfície lunar, e os cílios compridos de planta carnívora acusando.
Ele a tirou lá debaixo, do chão de cascalho, e a pegou no colo. Ela não era uma criança. Era alguém que estava na festa, e segurava o próprio pulso, olhando séria para ele, tentando consertá-lo com a força do pensamento --e essa foi a primeira demonstração de ilusionismo que Elisa deu para Rivoli. Ela não era capaz de consertar as coisas olhando para elas, mas mesmo que não consertassem --e não consertavam--continuava olhando para elas. [...] No futuro, olharia concentrada para a distração de Rivoli, tentando consertá-la."
Extraído do livro "Pessoas que Passam pelos Sonhos", de Cadão Volpato
Escrito por Júlio Cesar Góes às 05h49
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