O início da minha carreira em física de partículas elementares foi em um laboratório no Cern, em Genebra, onde tinha um acelerador de partículas que faz essas radiações. E eu pude fazer observações num detector chamado câmara de bolhas, que ainda existia na época, e que permite visualizar por efeito macroscópico de ampliação o caminho de uma partícula, permite identificar essas partículas, medir e calcular as suas características e depois saber o que acontece nessa região da constituição da matéria. Quando eu vi isso – para mim até então as partículas eram uma abstração –, quando de repente eu vi os perpasses que permitem saber que essas radiações têm efeitos materiais, foi um pouco o meu caminho de Damasco, como caminho da revelação para São Paulo. Só que a minha revelação não foi de Deus, mas da realidade íntima da matéria.
Afinal de contas, que idade nos pertence mais que a infância, na qual, verdadeiramente, dependemos dos outros? Tudo é mais longo na infância. As férias nos parecem deliciosamente eternas. Os horários de aula também. Embora sujeitos à escola e sobretudo à família, temos nessa época da vida mais liberdade ante o que nos amarra do que em qualquer outra. Isso se deve, me parece, a que a liberdade na infância é idêntica à imaginação, e, como nesta tudo é possível, a liberdade para ser algo mais que a família e algo mais que a escola voa mais alto e nos permite viver mais separados que nas idades em que temos de nos conformar para sobreviver, ajustar-nos aos ritmos da vida profissional e submeter-nos a regras herdadas e aceitas por outra espécie de conformismo geral. Éramos, quando crianças, magos sigulares. Seremos, quando adultos, rebanhos.
Trecho de "A Verdade e a Fortuna" de Carlos Fuentes Tradução de Carlos Nougué
Jamais provou uma iguaria, jamais degustou uma iguaria quem sempre a comeu com moderação. Assim se conhece talvez o prazer da comida, mas nunca a avidez por ela, o desvio do caminho plano do apetite, que leva à mata virgem da comezaina. É na comezaina, a saber, que estes dois se reúnem: a imoderação do desejo e a monotonia com que ele se sacia. Comer, isto significa antes de tudo: comer radicalmente. Não há dúvida de que isso alcança mais profudamente a coisa devorada que o prazer. Por exemplo, quando alguém dá uma dentada na mortadela como se fosse pão, se chafurda no melão como numa almofada, lambe caviar de papel farfalhante e sobre uma cuia de queijo Edam se esquece de tudo o mais que existe na Terra para comer.
- Defendes pretos, Atticus? - perguntei-lhe eu nessa mesma tarde.- Claro que sim. Não digas preto, Scout. É feio. - Mas`é o qu`toda a gente diz na escola. - Então, a partir de agora passa a ser toda a gente, menos uma pessoa... - Mas então, se não queres que cresça a falar desta maneira, por que é que me mandas p`ra escola?
En guerra. Entre 250.000 y 300.000 menores de 15 años están actualmente vinculados a fuerzas armadas o grupos armados, según Naciones Unidas. En la última década, las guerras se han cobrado la vida de más de dos millones de niños y niñas, y han dejado un millón de huérfanos. En Uganda alrededor de 25.000 menores y mujeres han sido hechos cautivos por los rebeldes desde finales de los años ochenta. Agnes recuerda con horror sus años con la guerrilla. "Pasé hambre y mucho miedo". Posa con todo lo que tiene: su ropa en una maleta.
Dos atletas saltan de un lado a otro de mi alma lanzando gritos y bromeando acerca de la vida: y no sé sus nombres. Y en mi alma vacía escucho siempre cómo se balancean los trapecios. Dos atletas saltan de un lado a otro de mi alma contentos de que esté tan vacía. Y oigo oigo en el espacio sonidos una y otra vez el chirriar de los trapecios una y otra vez. Una mujer sin rostro canta de pie sobre mi alma, una mujer sin rostro sobre mi alma en el suelo, mi alma, mi alma: y repito esa palabra no sé si como un niño llamando a su madre a la luz, en confusos sonidos y con llantos, o bien simplemente para hacer ver que no tiene sentido. Mi alma. Mi alma es como tierra dura que pisotean sin verla caballos y carrozas y pies, y seres que no existen y de cuyos ojos mana mi sangre hoy, ayer, mañana. Seres sin cabeza cantarán sobre mi tumba una canción incomprensible. Y se repartirán los huesos de mi alma. Mi alma. Mi hermano muerto fuma un cigarrillo junto a mí.
Com freqüência se tem imaginado a gênese das grandes obras na imagem do nascimento. Esta imagem é dialética; abrange o processo por dois aspectos. Um tem a ver com aconcepção criativa e se refere, no temperamento, ao feminino. Este fator feminino se esgota com a conclusão. Dá vida à obra e então se extingue. O que morre no mestre com a criação concluída é aquela parte nele em que a obra foi concebida. Mas eis que o conclusão da obra não é uma coisa morta - e isso leva ao outro aspecto do processo. Ele não é alcançável pelo exterior; o polimento e o aprimoramento não podem extraí-lo à força. Ele se consome no interior da própria obra. Aqui também se pode falar de um nascimento. Ou seja, em sua conclusão, a criação torna a parir o criador. Não segundo a sua feminilidade,na qual ela foi concebida, mas no seu elemento masculino. Bem-aventurado, o criador ultrapassa a natureza: pois esta existência que ele recebeu, pela primeira vez, das profundezas escuras do útero materno, terá de agradecê-la agora a um reino mais claro. A sua terra natal não é o lugar onde nasceu,mas, sim, ele vem ao mundo onde é asua terra natal. É o primogênio masculino da obra, que foi por ele cancebida.