DECLARAÇÃO DE AMOR
Eu vim do mar! Sou filho de outra raça. Para servir meu rei andei à caça de mundos nunca vistos nem sonhados, por mares nunca de outrem navegados. Ora de braço dado com a procela, ora a brigar com ventos malcriados. Trago um cruz de sangue em cada vela!
Na crista da onda, em meio do escarcéu, na solidão encrespada e redonda, quanta vez me afundei no inferno d’água ou com a cabeça fui bater no céu! Simples brinquedo em mãos da tempestade fabulosa ambição me trouxe aqui.
A ambição pode mais do que a saudade… Ambas me foram ver, quando eu parti.
A saudade, abraçou-me, tão sincera, soluçando, no adeus do nunca-mais. A ambição de olhar verde, junto ao cais, me disse: vai que eu fico à tua espera!
E agora, ó Uiara, eu sou um rouxinol. Épico só no mar, lírico em terra, quero gorjear à beira do regato e o teu beijo colher, fruta do mato, no teu corpo pagão, quente de sol. E agarrar-me aos teus seios matutinos, nauta que amou centenas e centenas de ondas em fúria e veio naufragar, depois de tudo, em duas ondas morenas, que valem mais, em sendo duas apenas, do que todas as ondas que há no mar. Que importa a nós as brejaúvas más, na virgindade insólita onde fechas o teu supremo bem-ínvio tesouro, vigiado pelas onças de olhos de ouro - guardem seus cachos roxos entre flechas e eu beba a água que o sertão me traz nas folhas grossas dos caraguatás?
Que importa, no ar, papagaios em bando, ou araras pintadas, dêem risadas, por nos verem assim, falando a sós, tu da cor da manhã, eu cor do dia, se os pássaros do amor e da alegria a todo instante pousarão cantando nas coisas que te digo, em minha voz?
Eu vim do mar! Sou filho da procela. Trago uma cruz de sangue em cada vela. Para sentir a glória de te amar, lobo do oceano acostumado a tudo, épico só no mar, lírico em terra, estenderei o couro de um jaguar sobre este chão que ficará um veludo mais verde, mais macio do que o mar… No mar, o bravo peito lusitano. Em terra o amor em primeiro lugar.
E tão grande há de ser a nossa luta sobre o leito trançado de cipós, que a Noite cairá, pesada e bruta, suando pingos de estrelas sobre nós! Cassiano Ricardo
Escrito por Júlio Cesar Góes às 05h42
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OBRAS INACABADAS

Crossed-leg Slave by Michelangelo
Num museu em Florença (Galleria dell'Accademia), está a série de esculturas inacabadas, obras de Michelangelo, o mármore ainda bruto não de todo cinzelado, esboçando um conjunto monumental de escravos. Segundo os entendidos, eles comporiam o túmulo de seu protetor, o papa Júlio 2º, túmulo também inacabado, do qual só nos ficaria o assombroso "Moisés", que hoje está na igreja de São Pedro in Vinculis, em Roma. Tanto para o papa como para o artista, o túmulo deveria ficar como a principal herança da Renascença para a humanidade. Pulo da Renascença para Fellini, que fazia caricaturas para uma revista e sonhava filmar uma história de Dino Buzzati, com o estranhíssimo título de "A Viagem de Giuseppe Mastorna". Foi processado pelo produtor, Dino De Laurentiis, porque nunca rodou uma única cena. Isso não impediu que Fellini fizesse outros filmes, inclusive "Oito e Meio", que conta exatamente o drama do artista que persegue uma grande obra, começa a embromar o produtor e exige locações absurdas, como uma praça medieval com um Boeing no meio, e algumas instalações que parecem rampas de foguetes espaciais. Ele não acredita que a produção consiga o absurdo, mas o produtor arranja dinheiro e leva o diretor para ver o cenário e dar uma entrevista à imprensa internacional. O diretor desmaia ao ver o que foi feito, tem de dar alguma explicação aos jornalistas. "Eu paguei um dinheirão a todos eles, diga qualquer coisa sobre o filme, invente!". O produtor está furioso. Uma repórter alemã grita para os jornalistas: "Ele não tem nada a dizer!". "Oito e Meio" é em parte o que restou de "Giuseppe Mastorna": um filme sobre um filme que jamais seria feito. Na última entrevista que deu, Fellini confessa que todos os seus filmes são pedaços do projeto inacabado, projeto que ele perseguiu por toda a vida sem conseguir realizar. Pulo agora para o "Doutor Fausto", de Thomas Mann, um tema tipicamente germânico; antes de Goethe fazer o seu Fausto, já havia diversos Faustos publicados na Alemanha. O autor de "A Montanha Mágica" fez de Adrian Leverkühn um músico perseguindo a sinfonia perfeita e que vende a alma ao diabo para consegui-la. O máximo que obtém é contrair sífilis com uma prostituta. Nelson Rodrigues sofreu a vida toda porque queria fazer um romance de 900 páginas, que fosse maior do que "Guerra e Paz", de Tolstói. Sua genialidade chegou a "Vestido de Noiva", a "Doroteia", a "Bonitinha, mas Ordinária". Com sua indiscutível importância de maior poeta dramático da literatura nacional, não chegou lá. Outro que nunca chegaria lá fui eu mesmo. Aos 20 anos, ouvi pela primeira vez, na catedral de Siena, a "Messa por Papa Marcello", obra de Pierluigi da Palestrina, que com ela iniciou a música moderna, antes restrita a duas dimensões (ritmo e melodia). Palestrina criou a terceira dimensão, o contraponto, fazendo na música o que Giotto fizera na pintura. Desde aquele dia, pensei em fazer um romance com esse título. O tempo foi passando, fiz romances até demais. Na altura do terceiro, a editora de Ênio Silveira anunciou o seguinte: "Próximo lançamento: 'Messa por Papa Marcello'". Verdade que tentei. Cheguei a esboçar uma pequena cena que escrevi na hora, a pedido do Arnaldo Bloch, que a publicou em "O Globo" já faz tempo. O mundo não acabou, eu também ainda não acabei, mas estou na reta final. Fiz outros romances e cheguei a pensar em Adrian Leverkühn, invocando o diabo para vender a alma em troca da sinfonia que pretendia. O diabo é que o diabo não me levou a sério. Quando criança, tentara vendê-la em troca de uma torta de banana. Imaginei Satanás trazendo-me a torta, quentinha, untada de manteiga. O Pai das Trevas achou mau negócio dar uma torta em troca de uma alma que um dia seria dele. O fato é que, toda vez que ligo o computador, penso na torta, em Adrian Leverkühn. Por sorte, até hoje não contraí sífilis nem consegui a sinfonia desejada. E, como o tempo continua passando com suas injúrias, estando eu cada vez mais próximo do definitivo pendurar as chuteiras, descubro a única verdade a meu respeito: não tenho nada a dizer. Mas assim mesmo, digo.
Carlos Heitor Cony
Escrito por Júlio Cesar Góes às 20h02
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CARIMBO TRANSFORMADOR

Xilogravura de Fabrício Lopez As melhorias sociais e econômicas e a tranquilidade política dos anos 2000 parecem ter eliminado o sentido de urgência diante das carências brasileiras: de educação, de renda, de saúde, de segurança -entre tantos problemas sociais. Ouve-se o louvor uníssono do crescimento, como se ele, por si só, resolvesse toda a iniquidade. Lamenta-se a mediocridade da educação, em especial na falta de mão de obra qualificada, mas não se vê pressa nem inventividade nas providências para melhorar a escola. A mais recente publicação dos dados detalhados do Censo 2010 evidencia quão incivilizado ainda é o Brasil. No país da "nova classe média", em mais de 28% das casas a renda mensal por pessoa não passava de meio salário mínimo: R$ 8,50 por dia, o valor de algumas passagens de ônibus. No Nordeste, em 48,4% dos domicílios ela ainda era inferior a isso. Na idade de cursar ou concluir o ensino médio, 1 em cada 6 jovens de 15 a 17 anos estava fora da escola. Metade dos brasileiros com mais de 25 anos fazia parte do grupo de pessoas sem instrução, ou não havia completado o ensino fundamental (oito anos de estudo) -pessoas que dificilmente chegariam ao ensino secundário. Já foi pior, costuma-se dizer: em 2000, eram 64% os maiores de 25 anos que tinham menos de oito anos de estudo. A mortalidade infantil caiu pela metade em uma década. Um feito notável, mas em 2010 era ainda o dobro da americana, ou o quádruplo da registrada na Europa ocidental. A taxa de fecundidade média declinou a níveis escandinavos. É como se boa parte da população tivesse tomado a iniciativa de racionalizar o uso de seus recursos escassos tendo menos filhos. Sem contar com serviços públicos de qualidade para as crianças, resta a opção de reduzir seu número e investir mais em cada uma delas. O país que começa a envelhecer pode se tornar maduro sem ter ido em massa à escola. Está à beira de chegar ao período demográfico mais favorável ao progresso econômico e social, aquele em que há mais trabalhadores por crianças e idosos, sem que o trabalho seja qualificado e produtivo o bastante para permitir que a economia dê um salto definitivo para o grupo das nações desenvolvidas. Os avanços suscitam um clima de autoindulgência, de descaso com mudanças institucionais, de conforto na banalidade das pequenas vitórias. Um consenso acomodatício em torno dos paliativos e da falta de imaginação política e social, seja na oposição, seja no governo liderado pelo PT. Folha de São Paulo, Opinião, quinta-feira, 03 de maio de 2012
Escrito por Júlio Cesar Góes às 07h01
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LENÇO DOS NAMORADOS

Aqui tens meu coração E a chabe pró abrir Num tenho mais que te dar Nem tu mais que me pedir. Bai carta feliz buando Nas asas dum passarinho Cando bires o meu amor Dále um abraço e um veijinho Meu Manel bai pró Brasil Eu tamen bou no Bapor Guardada no coração Daquele quê meu amor Meu Manel bai pró Brazil Eu tamem bou no bapor Gardada no coração Daquele qué meu amor (quadra popular da região do Minho, Portugal)
Escrito por Júlio Cesar Góes às 05h42
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NÃO ENCARAR ESSA REALIDADE...
Sim, mas esse é um ponto de vista racional. Do ponto de vista da fé, nada disso é fatal. Podemos ter uma atitude política, tentar intervir na realidade. Mas, se não formos conduzidos pela fé, o realismo leva-nos a desistir. O cristão tem possibilidade de se livrar dessa fatalidade na sua relação com o céu. Na metáfora que utilizo, levantar o céu, é trazer a terra ao encontro do céu. Aí, não estamos sós. Temos a intervenção de Deus, temos a fé na redenção, no perdão dos pecados, no valor do sofrimento, na abnegação, na bondade... Temos também a fé na cultura, na inspiração extraordinária dos grandes artistas, que alcançam níveis fantásticos de captação da bondade, da beleza do mundo. E temos a renovação constante da vida: se há um incêndio numa mata, vemos daí a pouco aparecerem as flores, as ervas. A vida não desiste de se reproduzir, de envolver a realidade. José Mattoso
Escrito por Júlio Cesar Góes às 18h38
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DEUS JÁ FOI MULHER

Foto de Júlio Cesar Góes. Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar. Mia Couto em "A confissão da leoa"
Escrito por Júlio Cesar Góes às 06h56
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O TRABALHO DA ABELHA

Foto de Júlio Cesar Góes
Escrito por Júlio Cesar Góes às 20h12
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O BANCO DAS FLORES

Foto de Júlio Cesar Góes. Braga, Portugal.
Escrito por Júlio Cesar Góes às 18h02
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