Histórico


    Outros sites
     CONFABULÁRIO - UNIVERSAL MX
     JORNAIS DO BRASIL
     ninhodogaviaodaserra
     BBC NEWS
     DEUTSCHE WELLE
     FOLHA DE SÃO PAULO
     ELPAIS.ES
     IPSILON
     ELCULTURAL.ES
     CULTURE-GUARDIAN UK
     NYT - Art & Design
     LIVRARIA CULTURA
     BIOMAT.NET
     PESQUISA FAPESP
     Departamento de Física - UFCE
     ALETRÔMETRO
     LARANJA PSICODÉLICA
     DRAGÃO DO MAR - ARTE E CULTURA
     COMPANHEIRA DO TEMPO
     ACONTECIMENTOS
     DANIEL PIZA
     POEMAS DA CIDADE
     BLOGDONOBLAT
     LE FIGARO


     
    Ninho do Gavião da Serra


    O AMOR É UM SIGNO DO ZODÍACO

    Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco.


    por Gabriel García Marquez (1927 - 2014), em Memórias de Minhas Putas Tristes



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 18h19
    [] [envie esta mensagem] []



    EU, MWANITO, O AFIADOR DE SILÊNCIOS

     

    Escuto mas não sei

    Se o que oiço é silêncio

    Ou deus.

    [...]


    Sophia de Mello Breyner Andresen


    A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: "Jesusalém". Aquela era a terra onde Jesus haveria de se descrucificar. E pronto, final.

    Meu velho, Silvestre Vitalício, nos explicara que o mundo terminara e nós éramos os últimos sobreviventes. Depois do horizonte, figuravam apenas territórios sem vida que ele vagamente designava por "Lado-de-Lá". Em poucas palavras, o inteiro planeta se resumia assim: despido de gente, sem estradas e sem pegada de bicho. Nessas longínquas paragens, até as almas penadas já se haviam extinto.

    Em contrapartida, em Jesusalém, não havia senão vivos.Desconhecedores do que fosse saudade ou esperança, mas gente vivente. Ali existíamos tão sós que nem doença sofríamos e eu acreditava que éramos imortais. À nossa volta, apenas os bichos e as plantas morriam. E, nas estiagens, desfalecia de mentira o nosso rio sem nome, um riacho que corria nas traseiras do acampamento.

    A humanidade era eu, meu pai, meu irmão Ntunzi e Zacaria Kalash, nosso serviçal que, conforme verão, nem presença tinha. E mais nenhum ninguém. Ou quase nenhum. Para dizer a verdade, esqueci-me de dois semi-habitantes: a jumenta Jezibela, tão humana que afogava os devaneios sexuais de meu velho pai. E também não referi o meu Tio Aproximado.Esse parente vale uma menção: porque ele não vivia connosco no acampamento. Morava junto ao portão de entrada da coutada, para além da permissível distância, e apenas nos visitava de quando em quando. Entre nós e a sua cabana ficava a lonjura de horas e feras.

    Para nós, os miúdos, a chegada de Aproximado era razão de festa maior, uma sacudidela na nossa árida monotonia. O Tio trazia mantimentos, roupas, bens de necessidade. Meu pai, nervoso, saía ao encontro do camião onde se amontoavam as encomendas. Interceptava o visitante antes que o veículo invadisse a vedação que circundava o casario. Nessa cerca, Aproximado era forçado a lavar-se para não trazer contaminações da cidade. Lavava-se com terra e com água, fizesse frio ou fizesse noite. Depois do banho, Silvestre desbagageava o camião, apressando as entregas, abreviando as despedidas. Num volátil instante,mais breve que um bater de asas, ante o nosso olhar angustiado, Aproximado voltava a extinguir-se para além do horizonte.

    - Ele não é um irmão directo - justificava Silvestre. - Não quero muita conversa, esse homem não conhece os nossos costumes.

    Essa humanidadezita, unida como os cinco dedos, estava afinal dividida: meu pai, o Tio e Zacaria tinham pele escura; eu e Ntunzi éramos igualmente negros, mas de pele mais clara.

    - Somos de outra raça? - perguntei um dia. Meu pai respondeu: 

    - Ninguém é de uma raça. As raças- disse ele - são fardas que vestimos.

    Talvez Silvestre tivesse razão. Mas eu aprendi, tarde demais, que essa farda se cola, às vezes, à alma dos homens.

    - Vem de sua mãe, Dordalma, essa claridade da pele. Alminha era um bocadinho mulata - esclareceu o Tio.


    A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado.Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar,um talento para apurar silêncios.Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

    Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.

    - Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.

    Ao fim do dia, o velho se recostava na cadeira da varanda. E era assim todas as noites: me sentava a seus pés, olhando as estrelas no alto do escuro. Meu pai fechava os olhos, a cabeça meneando para cá e para lá, como se um compasso guiasse aquele sossego. Depois, ele inspirava fundo e dizia:

    - Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito.

    Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim, era um dom natural, herança de algum antepassado.Talvez fosse legado de minha mãe,Dona Dordalma,quem podia ter a certeza? De tão calada,ela deixara de existir e nem se notara que já não vivia entre nós, os vigentes viventes.

    - Você sabe, filho: há a calmaria dos cemitérios. Mas o sossego desta varanda é diferente.

    Meu pai. A voz dele era tão discreta que parecia apenas uma outra variedade de silêncio.Tossicava e a tosse rouca dele, essa, era uma oculta fala, sem palavras nem gramática.

    Ao longe, se entrevia, na janela da casa anexa, uma bruxuleante lamparina. Por certo, meu irmão nos espreitava. Uma culpa me raspava o peito: eu era o escolhido, o único a partilhar proximidades com o nosso eterno progenitor.

    - Não chamamos o Ntunzi?

    - Deixe o seu irmão. É consigo que mais gosto de ficar sozinho.

    - Mas estou quase a ter sono, pai.

    - Fique só mais um pouco.É que são raivas, tantas raivas acumuladas. Eu preciso afogar essas raivas e não tenho peito para tanto.

    - Que raivas são essas,meu pai?

    - Durante muitos anos alimentei feras pensando que eram animais de estimação.

    Queixava-me eu do sono, mas era ele quem adormecia. Deixava-o cabeceando na cadeira e regressava para o quarto onde Ntunzi, desperto, me esperava. O meu irmão me olhava com mistura de inveja e comiseração:

    - Outra vez essa treta do silêncio?

    - Não diga isso, Ntunzi.

    - Esse velho enlouqueceu. E o pior é que o gajo não gosta de mim.

    - Gosta.

    - Por que nunca me chama a mim?

    - Ele diz que sou um afinador de silêncios.

    - E você acredita? Não vê que é uma grande mentira?

    - Não sei, mano, que hei-de fazer se ele gosta que eu fique ali, todo caladito?

    - Você não percebe que isso é tudo conversa? Averdade é que você lhe traz lembranças da nossa falecida mãe. 

    Mil vezes Ntunzi me fez recordar o motivo por que meu pai me elegera como predilecto. A razão desse favoritismo sucedera num único instante: no funeral da nossa mãe, Silvestre não sabia estrear a viuvez e se afastou para um recanto para se derramar em pranto. Foi então que me acerquei de meu pai e ele se ajoelhou para enfrentar a pequenez dos meus três anos. Ergui os braços e, em vez de lhe limpar o rosto, coloquei as minhas pequenas mãos sobre os seus ouvidos. Como se quisesse convertê-lo em ilha e o alonjasse de tudo que tivesse voz. Silvestre fechou os olhos nesse recinto sem eco: e viu que Dordalma não tinha morrido. O braço, cego, estendeu-se na penumbra:

    - Alminha!

    E nunca mais ele proferiu o nome dela.Nem evocou lembrança do tempo em que tinha sido marido. Queria tudo isso calado, sepultado em esquecimento.

    - E você me ajude, meu filho.

    Para Silvestre Vitalício, a minha vocação estava definida: tomar conta dessa insanável ausência, pastorear demónios que lhe abocanhavam o sono. Certa vez, enquanto partilhávamos sossegos, arrisquei:

    - Ntunzi diz que lhe faço lembrar a mãe. É verdade, pai?

    - É o contrário, você me afasta das lembranças. Esse Ntunzi é que me traz espinhos do antigamente.

    - Sabe, pai? Ontem sonhei com a mãe.

    - Como pode sonhar com alguém que nunca conheceu?

    - Eu conheci, só não me lembro.

    - É a mesma coisa.

    - Mas recordo a voz dela.

    - Qual voz dela? Dordalma quase nunca falava.

    - Recordo um sossego que parece, sei lá, parece água. Às vezes penso que me lembro da casa, o grande sossego da casa...

    - E Ntunzi?

    - Ntunzi o quê, pai? 

    - Ele insiste que se recorda da mãe?

    - Não há dia em que ele não se recorde dela.

    Meu pai nada respondeu. Ruminou um novelo de resmungos e, depois, com voz rouca de quem foi ao fundo da alma, afirmou:

    - Vou dizer uma coisa, nunca mais vou repetir: vocês não podem lembrar nem sonhar nada, meus filhos.

    - Mas eu sonho, pai. E Ntunzi se lembra de tanta coisa.

    - É tudo mentira. O que vocês sonham fui eu que criei nas vossas cabeças. Entendem? 

    - Entendo, pai.

    - E o que vocês lembram sou eu que acendo nas vossas cabeças.

    O sonho é uma conversa com os mortos, uma viagem ao país das almas.Mas já não havia nem falecidos nem território das almas.O mundo tinha terminado e o seu final era um desfecho absoluto: a morte sem mortos.O país dos defuntos estava anulado, o reino dos deuses cancelado. Foi assim que, de uma assentada, meu pai falou.Até hoje essa explanação de Silvestre Vitalício me parece lúgubre e confusa. Porém, naquele momento, ele foi peremptório:

    - É por isso que vocês não podem nem sonhar nem lembrar. Porque eu próprio não sonho, nem lembro.

    - Mas, pai, o senhor não tem memória da nossa mãe?

    - Nem dela,nem da casa,nem de nada. Já não me lembro de nada.

    E ele se ergueu, rangente, para esquentar o café.Os passos eram de embondeiro que vai arrancando as próprias raízes. Olhou o fogo, fez de conta que se mirava num espelho, fechou os olhos e aspirou os perfumosos vapores da cafeteira.Ainda de olhos fechados, sussurrou:

    - Vou dizer um pecado: deixei de rezar quando você nasceu.

    - Não diga isso, meu pai.

    - Estou-lhe a dizer.

    Uns têm filhos para ficarem mais perto de Deus. Ele se convertera em Deus desde que era meu pai. Assim falou Silvestre Vitalício. E prosseguiu: os falsos tristes, os maus solitários acreditam que os lamentos sobem às alturas.

    - Mas Deus está surdo - disse.

    Fez uma pausa para erguer a chávena e saborear o café e, depois, rematou:

    - Mesmo que não estivesse surdo: que palavra há para falar a Deus?

    Em Jesusalém,não havia igreja de pedra ou cruz. Era no meu silêncio que meu pai fazia catedral. Era ali que ele aguardava o regresso de Deus.


    (em ANTES DE NASCER O MUNDO, por Mia Couto)



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 09h55
    [] [envie esta mensagem] []




    [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]