MANIFESTO

Song for Julio
Obra de David Byrne y David Hanson, 2008.
(Foto: Museo Reina Sofía)
Sim ao prazer sem custo.
Acatar, beber, dividir o bom
que venha feito o sol, gratuito.
Quem sabe se o dom, o sem-razão
e o sem-motivos possam mais
do que exigimos. Nem se duvide
do que é capaz a coincidência
entre coisas. Neste mundo
em que gênios são servos de si mesmos,
pratique-se o descanso, para
que o fogo nunca esteja frio
e o coração passeie seus cavalos.
Eucanaã Ferraz, em Cinemateca
Escrito por Júlio Cesar Góes às 07h20
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NÃO TEMAS O MAL
A função do romance e da arte é um pouco isso, usar até certos elementos desumanos, fora da moral do clã. Funciona justamente como vacina: o mal tem que estar presente. É preciso, na literatura, inocular o mal como se inocula o bacilo na vacina, usando sua própria essência. Um escritor sem sedução pelo mal, coitado, vira dono de uma literatura politicamente correta, edificante...
João Gilberto Noll
Escrito por Júlio Cesar Góes às 01h27
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COISAS DEMAIS

My Things of Book Keeping (2006), by Hong Hao.
abrigar (rostos de nomes, ruas de lugares, cidades de casas, livros de frases), ordenar, comer, dar os telefonemas necessários, ter uma paixão transpirando em algum ponto do mundo e do corpo, cuidar do corpo e do mundo, corpo subsistente em determinada posição, a salvo ou na mira de algum perigo, mundo exibido aos sentidos em diversas superfícies luminosas, cortinas de som, suavidade de um tecido, mas um mundo sempre local, parcial, limitado pelo alcance e pela vontade do encontro, então necessário
sentar-se nalgum ponto implica calar muitas vozes prementes, emudecer timbre, espessura, comprimento, sufocar aflições que partem de pontos limitados e parciais do mundo, seja em qualquer dos lados da epiderme, seja convertido em fluxo sangüíneo e contração muscular, seja uma suspeita, um sussurro entreouvido ou pressentido, vindo, em aparente paradoxo, de parte alguma, de um ponto vazio, onde não se pode sentar-se, nem mesmo calar
ou dirigir-se, ou imprimir-se, tomar pulso, dar vazão a um aguilhão (escolhido, sabe-se lá como, de dentro do tumulto), o que implica em certo alívio, embora temporário, na pressão do sistema, marcando a passagem do corpo pelo mundo, marcas anotadas, lembradas, revistadas, e que por serem assim tão preservadas se tornam partes efetivas do corpo, apêndices entre o corpo e o mundo, órgãos oficiais dos movimentos de felicidade
ademais, a contrapelo de qualquer utopia, não há confim possível, nem mesmo um fim possível, que não seja o fim de todas as coisas, o apagar definitivo de todos os mundos e todos os corpos, um armagedon particular das forças instiladas nas fibras, do curso dos fluidos, das conduções elétricas que permitem erguer um copo ou evocar um rosto e ligá-lo a um nome
ademais, à proa de qualquer profusão, viver implica esquecer a maior parte dos rastros e concentrar-se no balanço imediato do cor
po, nos afagos, no júbilo de ver, toda manhã, a geografia e a história do corpo se reconstituírem no mundo, a musculatura se redesenhar diante do corpo da mulher, que se mostra, que se amplia, que se abre em pernas, cheiros e líquidos
Caio Meira, em “Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer”
Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h11
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A SUPREFÍCIE TRANQUILA DO EU

François-Edouard Picot, Cupid and Psyche (1817)
A limpidez da sinceridade nos engana,
como nos engana,
a superfície tranqüila do eu.
Ana Cristina César
Escrito por Júlio Cesar Góes às 21h51
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QUÉ HICIERON

Salvador Dali, Slave Market with the Disappearing Bust of Voltaire
1940, Oil on canvas, 18 1/4 x 25 3/4 in
qué hicieron de aquel dia lleno de tigres suaves
como tu piel/ o nidos locos
donde temblaban tus telitas
dando a entender otra canción/ no ésta
llena de hijas de sal/
ojos de sol te habían crecido/
en tus pies empezaban las piernas de la luz/
y nadie recibía cartitas de la nada/
qué hicieron de aquel tigre
lleno de días/suavidades/vos/
como los árboles que dibujabas
para dar sombra en medio de la noche/
contra este fuego que crepita
triste en el ojo de pensar/
Juan Gelman, en “Interrupiciones 2”
Escrito por Júlio Cesar Góes às 19h17
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NECRÓPSIA

Marcos López em “ Rembrandt Examinado”
Nunca sabemos se nos vamos ao sairmos -
Rindo a Porta fechamos -
Passa o destino atrás - e põe a trava -
E nunca mais encontramos -
Emily Dickinson
Tradução de José Lira
Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h02
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AULA DE NATAÇÃO
Eu posso ensinar vocês a nadar. E não precisamos da piscina. Nós nos encontrávamos duas vezes por semana no meu apartamento. Quando eles chegavam, eu tinha três tigelas de água morna alinhadas no chão e uma quarta tigela na frente das outras, a tigela da professora. Eu colocava sal na água porque parece ser saudável engolir água quente salgada [...] Éramos quatro pessoas deitadas no chão da cozinha, chutando-o como se estivéssemos zangadas.
Extraído do livro "É Claro que Você Sabe do que Estou Falando",
de Miranda July
Escrito por Júlio Cesar Góes às 20h48
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MEU RIO QUER TE ENCONTRAR
Meu rio quer te encontrar,
Mar azul! Vais-me aceitar?
Meu rio quer que respondas,
Ó Mar - acalma essas ondas -
Trago-te os regatos
Que achei pelos matos -
Vem - Mar - me levar!
Emily Dickinson
Tradução de José Lira
Escrito por Júlio Cesar Góes às 22h37
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AMAR-AMARO
porque amou por que amou se sabia p r o i b i d o p a s s e a r s e n t i m e n t o s ternos ou desesperados nesse museu do pardo indiferente me diga: mas por que amar sofrer talvez como se morre de varíola voluntária vágula evidente?
ah PORQUE AMOU e se queimou todo por dentro por fora nos cantos ecos lúgubres de você mesm(o,a) irm(ã,o) retrato espetáculo por que amou?
se era para ou era por como se entretanto todavia toda via mas toda vida é indignação do achado e aguda espotejação da carne do conhecimento, ora veja
permita cavalheir(o,a) amig(o,a) me releve este malestar cantarino escarninho piedoso este querer consolar sem muita convicção o que é inconsolável de ofício a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima a vida também tudo também mas o amor car(o,a) colega este não consola nunca de nuncarás.
Carlos Drummond de Andrade
Escrito por Júlio Cesar Góes às 07h31
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O MÁGICO

Juan Muñoz
De mim o que trará em sua capa enigmática o mágico? De mim o que haverá em sua urna aguda e bem guardada? O que se mudará
de mim para o mundo falso e fundo de seus olhos sem que eu perceba nem queira dar por isso? Depois do espanto, depois do óbvio
sob o fingimento das mangas e de quantas ciências ocultas em suas mãos abertas (hora de ir embora) o que seremos?
O que serei de mim quando sair de cena o mágico? Que restará do encanto? Há de ficar a música de quando? Algum espinho? Um ás? O espanto?
Eucanaã Ferraz, em “Cinemateca”
Escrito por Júlio Cesar Góes às 09h15
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CORPO

Ides Kihlen, en clave abstracta
O corpo é um dos atributos da alma, a realidade uma de suas numerosas ocupações. O que chamamos de mundo material é uma armadilha dos sentidos (um jogo de espelhos). Em vez de converter a vida numa aventura múltipla, a tornamos previsível e aborrecida como um longo domingo sem revistas. Não temos paisagens, apenas letreiros de néon: BORGES HOT DOG, CERVANTES PIZZA, EMPADAS WHITMAN. A ciência do homem é um traste inútil: pestes prosseguem incólumes (o único que conseguiu foi multiplicá-las e fortalecê-las). Existir é uma de nossas limitações. Um dos psiquiatras de um sanatório se aproximou de um paciente que estava há vários dias num canto falando em voz baixa.
- Com quem você está falando? – perguntou o psiquiatra.
O paciente olhou-o com indulgência e depois disse baixando a cabeça:
- Não sou eu que falo. É alguém que fala comigo.
Nós nos deslocamos roçando as fronteiras de outros mundos, o que chamamos de eu mesmo é apenas uma parte de nós. Usamos mal a mente, vivemos de portas fechadas. Corpo é um dos atributos da alma, talvez não seja seu pior defeito.
Trecho de “Técnicas de masturbação entre Batman e Robin”,
de Efraim Medina Reyes
Escrito por Júlio Cesar Góes às 07h23
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VALSA PARA GRAÇA
Abra-se tudo em grande-angular:
alas a ela, abra-se tudo em salas que se abram
em salas abertas, salões, e o que se fechara
antes desabroche numa sucessão de estrelas
em pleno dia claro. Abra-se o teto
do planetário, abra-se o coração do fogo
e nele toda dor torne a nada e
nada lhe resista e por onde passe alastre
sua leveza. Alas a ela, e que ela me leve.
Porque nela tudo parece mover-se sobre salto
alto, sobretudo a alma, a alma que parece calçar
a mesma sandália que as palavras e os gestos
dela, alas a ela, que, assim
alta, como que vai
descalça e dançasse sobre-além dos alarmes
e do medo, largando na sua valsa
um rasto só de beleza. Alas a ela.
Eucanaã Ferraz, em “Cinemateca”
Escrito por Júlio Cesar Góes às 18h38
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TENTAÇÃO

Salvador Dalí. The Temptation of St. Anthony. 1946. Oil on canvas. 89.7 x 119.5 cm.
Ainda não era menino ou menina. Tudo o que sabia era o nome das cores. Tudo o que sentia era sede e fome. Mas houve o verão em que os barcos não regressaram. Foi quando, apontando a linha do horizonte, a mãe disse ao seu ouvido: - és um homem.
Eucanaã Ferraz
Escrito por Júlio Cesar Góes às 22h07
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PARAISÓPOLIS

"Seguiu pela Marginal ao longo do rio Pinheiros, beirando as casas dos emergentes no Morumbi e, (...) sem atinar, penetrou na zona proibida, e não estamos falando nem de Embu-Guaçu, mas de uma região bem pior: Paraisópolis, que mais tem de inferno que de paraíso, perigosa e, por isso mesmo, atraente naquele momento. Não conduzia ela própria: deixava-se conduzir pelo carro e pela música. A ignição falha, agora só imperam medo e a voz lamuriante de Björk".
Extraído de "Paraíso Perdido", de Cees Nooteboom
Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h09
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