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DIA MUNDIAL DO ORGASMO

Mujer con máscara de gato, fotografía de Wanda Wulz
Nua, mas para o amor não cabe o pejo Na minha a sua boca eu comprimia. E, em frêmitos carnais, ela dizia: ? Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo Fremente, a minha boca obedecia, E os seus seios, tão rígidos mordia, Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos Disse-me ela, ainda quase em grito: ? Mais abaixo, meu bem! ? num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca, ? Mais abaixo, meu bem! ? disse ela, louca, Moralistas, perdoai! Obedeci....
Delírio de Olavo Bilac
Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h18
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VAZIO DAS COISAS

Tim Hetherington Homemade football. Angola, 2002.
Não me perguntem nada. Eu vi que as coisas quando buscam seu curso encontram seu vazio.
Poema parte de "Poeta em Nova York" (em "Obra Poética Completa").
de Frederico Garcia Lorca
Escrito por Júlio Cesar Góes às 19h31
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BATALHA PERDIDA

Pieter Brueghel's "The Bad Shepherd"
Que é uma batalha perdida?
É uma batalha que julgamos ter perdido.
Joseph de Maistre
Escrito por Júlio Cesar Góes às 07h26
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ESPELHOS

Noe's Harbour (2008), Halim Karabibene
Os espelhos estão cheios de gente. Os invisíveis nos vêem. Os esquecidos nos lembram. Quando nos vemos, os vemos. Quando nos vamos, eles se vão?
Este livro foi escrito para que não partam. Nestas páginas unem-se o passado e o presente. Renascem os mortos, os anônimos têm nome: os homens que ergueram os palácios e os templos de seus amos; as mulheres, ignoradas por aqueles que ignoram o que temem; o sul e o oriente do mundo, desprezados por aqueles que desprezam o que ignoram; os muitos mundos que o mundo contém e esconde; os pensadores e os que sentem; os curiosos, condenados por perguntar, e os rebeldes e os perdedores e os lindos loucos que foram e são o sal da terra.
Trecho do livro "Espejos. Una historia casi universal", de Eduardo Galeano
Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h04
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ODE A WALT WHITMAN
Nova York de lama, Nova York de arame e de morte. Que anjo levas oculto na face? Que voz perfeita dirá as verdades do trigo? Quem o sonho terrível de tuas anedotas manchadas?
Nem um só momento, velho formoso Walt Whitman, deixei de ver tua barba cheia de mariposas, nem teus ombros de veludo gastos pela lua, nem tuas coxas de Apolo virginal, nem tua voz como uma coluna de cinza; ancião formoso como a névoa que gemias como um pássaro com o sexo atravessado por uma agulha, inimigo do sátiro, inimigo da vide e amante dos corpos sob o grosseiro pano. Nem um só momento, formosura viril que em montes de carvão, anúncios e ferrovias, sonhavas ser um rio e dormir como um rio com aquele camarada que poria em teu peito uma pequena dor de ignorante leopardo.
Nem um só momento, Adão de sangue, macho, homem só no mar, velho formoso Walt Whitman, porque pelas açotéias, agrupados nos bares, saindo em cachos dos esgotos, tremendo entre as pernas dos chauffeurs ou girando nas plataformas do absinto, os maricas, Walt Whitman, te sonhavam.
Também esse! Também! E se despenham em tua barba luminosa e casta, louros do norte, negros da areia, multidões de gritos e ademanes, como gatos e como as serpentes, os maricas, Walt Whitman, os maricas turvos de lágrimas, carne para chicote, bota ou mordedura dos domadores.
Poema parte de "Poeta em Nova York" (em "Obra Poética Completa").
de Frederico Garcia Lorca
Tradução de William Agel De Mello.
Escrito por Júlio Cesar Góes às 14h35
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RETRATO DO POETA
Duas da manhã: abro uma gaveta Com um gesto sem finalidade E dou com o retrato do poeta Carlos Drummond de Andrade. Seus olhos nem por um segundo Piscam; o poeta me encara E eu vejo pela sua cara Que ele devia estar sofrendo Dentro daquela gaveta há muito. Tiro-o, depois com mão amiga Limpo-o da poeira que lhe embaça Os óculos e suja-lhe a camisa E o poeta como que acha graça. Procuro um lugar para instalá-lo Na minha pequena sala fria Essa sala tão sem poesia Onde me reencontro todo dia E onde me sento e onde me calo.
Vinicius de Moraes
Escrito por Júlio Cesar Góes às 21h50
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FUNDAÇÃO DA ARTE DE TE DESENHAR
Em algum leito do golfo de Corinto, uma mulher contempla, à luz do fogo, o perfil de seu amante adormecido.
Na parede, reflete-se a sombra.
O amante, que jaz ao seu lado, partirá. Ao amanhecer partirá para a guerra, partirá para a morte. E também a sombra, sua companheira de viagem, partirá com ele e com ele morrerá.
Ainda é noite. A mulher recolhe um tição entre as brasas e desenha, na parede, o contorno da sombra.
Esses traços não partirão.
Não a abraçarão e ela sabe disso. Mas não partirão.
Trecho do livro "Espejos. Una historia casi universal", de Eduardo Galeano
Escrito por Júlio Cesar Góes às 22h55
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O ENCONTRO
Eu gostaria de registrar o que aconteceu na casa de minha avó no verão em que eu tinha oito ou nove anos, mas não tenho certeza se realmente aconteceu. Tenho de testemunhar um acontecimento incerto. Que eu sinto rugir dentro de mim, essa coisa que pode nem ter acontecido. Não sei nem que nome dar a isso. Acho que se pode chamar de crime da carne, mas a carne há muito se desfez e não sei bem qual mágoa pode restar nos ossos.
Meu irmão Liam adorava pássaros e, como todo menino, adorava os ossos de animais mortos. Não tenho fi lhos homens, de forma que sempre que passo por qualquer pequeno crânio ou esqueleto eu hesito e penso nele, no quanto ele admirava os detalhes daquilo. Os braços antigos de uma gralha se projetando da massa de penas; duros, claros, limpos. Essa é a palavra que usamos para ossos: limpos.
Falo para minhas filhas não pisarem, claro, no crânio de camundongo que encontramos no bosque ou no tentilhão que se desmancha no muro do jardim. Não sei bem por quê. Embora a gente às vezes encontre, na praia, um osso de siba tão puro que não consigo deixar de enfiar no bolso, e minha mão sente conforto em seu branco arco secreto.
Não se pode difamar os mortos, acho, só se pode lhes dar consolação.
Então ofereço a Liam esta imagem: minhas duas filhas correndo na beira arenosa de uma praia de pedras, sob um céu baixo e turbulento, os ombros de seus casacos encolhidos para trás. Depois apago a imagem. Fecho os olhos e flutuo com a forte estática do mar. Quando os abro de novo, é para chamar as
meninas de volta para o carro.
Rebecca! Emily!
Não importa. Não sei qual é a verdade e não sei como contar a verdade. Tudo o que tenho são histórias, idéias noturnas, as súbitas convicções que a incerteza desova. Tudo o que tenho são delírios, é mais isso. Ela o amava! digo. Devia amar! Espero pelo sentido que o amanhecer nos traz quando não se dormiu nada. Fico no andar de baixo enquanto minha família ressona acima de mim e escrevo, deposito todos em lindas frases, todos os meus ossos limpos, brancos.
Trecho do livro "O Encontro", romance da irlandesa Anne Enright
Man Booker Prize de 2007
Escrito por Júlio Cesar Góes às 20h21
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ÓCIO ESSENCIAL
O ócio é essencial ao ser humano. Mas o homem é um tolo e acredita no trabalho, na força do trabalho, no enobrecimento que o trabalho traz. Por isso, o homem inventou o computador, o celular e carros cada vez mais velozes. E o learjet, o helicóptero, e etc. Para correr, correr, correr e fazer reuniões, reuniões. Com o celular e o computador, com os laptops e notebooks, a humanidade está trabalhando como desgraçada cada vez mais. Veja nos aeroportos o número de executivos falando ao celular. Veja o desespero deles quando precisam desligar o telefone no avião. Ficam nervosos, tremem, soluçam, sentem-se desligados do mundo, da terra. Sem celular e computador um homem fica impotente. Um homem ocioso, em lugar de ser considerado um sábio, é visto como marginal, outsider, deslocado, um pária da sociedade, um elemento que não interessa ao capitalismo vigente. Preconceitos. Porque a maior delícia do mundo é o ócio, o não fazer nada, o saber que os outros estão fazendo e você não, você não participa dessa loucura geral que tem provocado úlceras, infartos, câncer, angústias, ansiedades, carradas de toneladas de Prozac. Quem vive no ócio dispensa o Prozac. Por acaso as toneladas de antidepressivos são gratuitas? Não! E mais não escrevo, nem digo, porque vou estragar meu ócio interrompido.
Ignácio de Loyola Brandão
Escrito por Júlio Cesar Góes às 20h31
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VIVO OU MORTO

“The Beginnings” (1987) by Ed Ruscha
Nascemos sujeitos. Desde o momento de nosso nascimento somos sujeitos. Uma marca dessa sujeição é a certidão de nascimento. O Estado aperfeiçoado detém e mantém o monopólio de certificar o nascimento. Ou você recebe (e leva consigo) uma certidão do Estado, adquirindo assim uma identidade que no curso da vida permite que o Estado o identifique e localize (vá em seu encalço), ou você segue em frente sem uma identidade e se condena a viver fora do Estado como um animal (animais não têm documentos de identificação).
Não apenas lhe é vedado entrar no Estado sem identificação: aos olhos do Estado, você não morre enquanto não tiver uma certidão de óbito; e a certidão de óbito só lhe pode ser dada por um funcionário que possua ele (ela) próprio (a) uma certidão
do Estado. O Estado procede com extremo rigor na certificação da morte — veja-se o envio de uma horda de cientistas forenses e burocratas para esquadrinhar, fotografar, cutucar e espetar a montanha de corpos humanos deixada pelo grande tsunami de dezembro de 2004 a fim de determinar suas identidades. Não se poupam despesas para garantir que o censo de sujeitos esteja completo e acurado.
Se o cidadão vive ou morre não é preocupação do Estado. O que importa para o Estado e seus registros é se o cidadão está
vivo ou morto.
Trecho do livro “Diário de um ano ruim”, de J. M. Coetzee
Escrito por Júlio Cesar Góes às 10h02
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TROCA DE GENTILEZAS
Lindo dia, disse eu. É, disse ela, de costas para mim. Você é nova?, eu perguntei, querendo dizer nova nas Torres Sydenham, embora outros sentidos também fossem possíveis, É nova nesta terra?, por exemplo. Não, disse ela. Que problema, puxar conversa. Eu moro no térreo, eu disse. Eu posso fazer abordagens assim, que elas são tomadas por loquacidade. Um velho tão falante, ela dirá ao dono da camisa rosa com colarinho branco, foi difícil me livrar dele, a gente não quer ser rude. Eu moro no térreo desde 1995 e ainda não conheço todos os meus vizinhos. É, disse ela, e mais nada, querendo dizer É, estou ouvindo o que você diz e concordo, é uma tragédia não saber quem são seus vizinhos, mas é assim que é na cidade grande, e tenho mais o que fazer agora, então podemos deixar esta troca de gentilezas morrer de morte natural?
Trecho do livro “Diário de um ano ruim”, de J. M. Coetzee
Escrito por Júlio Cesar Góes às 04h17
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GUANO

Escrito por Júlio Cesar Góes às 08h31
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LA ÚLTIMA PARÁBOLA DEL NIÑO PREDICADOR
Es domingo por la noche y vamos a Paiján, allí donde todo empezó. En la camioneta de papá suena una de las canciones del Niño Predicador y Nezareth la está cantando en voz baja, Cristooo es la solución, para todo problema. Adelante, viajan papá y mamá. Atrás, en dos filas de asientos, estamos el pastor Neri Basilio, amigo de la familia; Nezareth, que canta; Tirza Devid, su hermana menor; y yo, que le pregunto al predicador:
-¿Ya no tienes la voz de antes, no?
-No, ya no me sale bien esa canción.
-Es que ya no eres un niño, ya no eres el Niño Predicador.
-Ahora soy el joven predicador -dice después de un largo silencio.
Hay niños predicadores en todo el mundo, y la historia de Nezareth Casti Rey también es fascinante por ser igual a otras. En el conjunto está la peculiaridad: algo está ocurriendo, creen los evangélicos, quienes adoctrinan a los niños en su religión, los instruyen en la Biblia y no hay nada extraordinario ni milagroso en ello. Es casi un acto de sobrevivencia frente a otras religiones más antiguas y poderosas y gobernadas por adultos: un niño evangélico puede garantizar la continuidad de su religión, que está en franco ascenso demográfico, y a los cinco años de edad ya es capaz de hablar de Dios con la misma naturalidad con la que pide chocolates.
En Brasil, Ana Carolina Dias es una niña que predica desde los dos años. La pastora más pequeña del mundo, le han dicho, y se cree que sana enfermedades incurables, entre ellas el sida. En el mismo país, Marcos Ferreira do Santos, de dieciséis años, expulsa demonios desde que tenía cinco. En Panamá, los hermanos Dailyn y Kevin Patiño predican desde los dos y tres años de edad. Son hijos de un pastor que, cuando sus niños predicaron por primera vez, dijo: "El Espíritu Santo dirigió todo". En Estados Unidos, es famoso el caso del niño Terry Durham, The Little Man of God, quien no sólo predica, sino que lo hace con un ritmo gospel que incita al baile. En Lima, Perú, donde hay más de tres millones de evangélicos, hubo en el 2007 un Festival Evangélico de Niños Predicadores al que asistieron seis mil niños. Un año antes, en Ecuador, las iglesias evangélicas informaron que contaban con noventa y ocho niños predicadores. Ahora, camino a Paiján, el Niño Predicador, Nezareth Casti Rey, dice que tiene dos corbatas sin prendedor. La que tiene puesta y otra más clara.
Falta una media hora para llegar a Paiján, cuando se siente un golpe en la parte delantera de la camioneta.
-Creo que atropellamos un gato -dice Andrés Castillo, bajando la velocidad.
-¿O fue un zorro? -pregunta su mamá, asustada.
Afuera sólo se ve la oscuridad de la noche y la carretera apenas iluminada por la luna. El papá quiere detenerse, pero al final le parece una mala idea.
-De repente fue una pelota -dice.
-Lo mataste, Andrés.
-¿Qué, matamos a un gato, papá? -pregunta Nezareth.
Y se ríe. Se ríe mucho. Casi como un niño. Le parece gracioso que su papá, que no mata ni una mosca, haya matado a un gato.
Marisela Valderrama, pasado el susto, recuerda que la primera vez que Nezareth predicó, allá en Paiján, justo acababa de morir Lazi, una perra que ellos criaban. La perra se había escapado y en alguna parte del pueblo comió veneno y entonces Nezareth, que quería tanto a la Lazi y tenía tan sólo tres años, dijo en su primera prédica: Arrepiéntanse de sus pecados porque si no van a morir como la perrita. Todos se ríen en la camioneta. Experto desde niño en hilar lo sagrado con lo pagano, a través de un perro que se escapó de su casa Nezareth podía explicar las consecuencias del pecado. Memorizaba párrafos bíblicos -leídos por su madre- pero exponía, a través de ellos, un tema de actualidad: la prensa, llena siempre de malas noticias, era perfecta para detectar moralejas. El secreto de su prédica es un fenómeno tan interno que él sólo lo entiende así: "La explicación te viene a la mente y uno comienza a hablar". Nezareth Casti Rey empezó a hablar en Paiján, luego en Trujillo, después viajó en aviones y llegó así el dinero para su familia: la bendición de Dios.
La camioneta se estaciona y Marisela Valderrama dice:
-Bienvenido a mi Paiján, donde todo empezó.
Unas cuarenta personas han llegado esta noche a la iglesia "Dios es amor" para ver al Niño Predicador, incluyendo a un mendigo jorobado y sucio que parece impaciente por saludarlo. En la entrada de la iglesia, dos chicas de quince se miran entre ellas. Él les parece atractivo. La última vez que lo vieron, dice una de ellas, "Nezareth era un enano".
Nezareth Casti Rey baja de la camioneta y saluda a todos con una reverencia. El mendigo rompe el protocolo improvisado, lo abraza y le dice algo al oído. Andrés Castillo, dice:
-Todos quieren tocar a mi Nezareth.
Hace unas horas se avisó por la radio del pueblo que él vendría. El pastor de Paiján, Enrique Linares, una camisa blanca y un pantalón negro, cree que si le hubiesen dado unos días, la iglesia se hubiese llenado "porque todos quieren escuchar la palabra de Dios a través de él". La iglesia son cuatro paredes con bancas de madera; hay una cámara filmadora, un teclado electrónico que suena muy electrónico y flores artificiales por todas partes. En el púlpito, una pequeña elevación respecto al resto de la sala, hay sillas de plástico para la familia de Nezareth, invitados de honor, y de un momento a otro todos están cantando, felices, y "Padre santo, bendice a tu hijo Nezareth", dice el pastor Linares levantando la mano derecha. Gloria a Dios, responde la sala. Nezareth Casti Rey escucha todo de pie, recitando algo en voz baja y con la mano derecha levantada a media altura. Se mueve en círculos sobre su propio sitio, hasta que le toca hablar.
-Sabemos que Dios es un Dios de promesas -dice Nezareth Casti Rey, el Niño Predicador, con una seriedad que hace juego con su corbata.
-¡Gloria a Dios! -grita la gente.
-Fue aquí donde todo comenzó, Dios así lo planificó, estuvo dentro del corazón de Dios, dentro del plan del Señor y sé que si esto es de Dios, nadie lo puede destruir.
-¡Gloria a Dios!
El pastor Neri Basilio, también en las sillas de invitados de honor, pide a quienes se sientan enfermos que pasen adelante. La mitad de la iglesia hace lo que él dice. "Ponga su mano donde le duele", continúa el pastor Basilio. Nezareth Casti Rey está de pie frente a ellos. Levanta ambas manos, cierra los ojos, se concentra. Antes ha dicho, camino a Paiján, que en Chile, gracias a su poder de sanación, hizo oír a una niña sorda.
-Te pedimos que pongas la mano celestial en aquella herida, en aquella enfermedad, Señor -dice ahora.
-¡Gloria a Dios!
-Me dolían las plantas de mis pies y ya no me duelen -grita una mujer de unos cuarenta años.
-¡Gloria a Dios!
-Me dolía la cabeza y el corazón y ya no me duelen -dice otra.
-¡Gloria a Dios!
-Me dolían mis piernas y ya no.
Nezareth Casti Rey regresa a su lugar y seguirá hablando en voz baja, o quizá sólo moviendo los labios, lentamente, hasta el final de la ceremonia. Luego saldrá de la iglesia rodeado de gente que quiere tocarlo y subirá a la camioneta haciendo adiós con la mano. Un mendigo se despedirá de él pegando su rostro a la luna. Y la camioneta se alejará de Paiján, donde todo empezó, y Nezareth Casti Rey dejará de ser por fin y para siempre el Niño Predicador, se relajará en su asiento, pondrá la Biblia a un lado y entonces se reirá solo, muerto de risa como si acabara de recordar un buen chiste.
-¿Papá?
-Dime, Nezareth.
-¿Matamos al gato, no?
Daniel Titinger (Lima, 1977) es director editorial de la revista peruana Etiqueta Negra
Escrito por Júlio Cesar Góes às 19h57
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O POETA DO SILÊNCIO

Vilhelm Hammershøi, Rest (oil on canvas)
Escrito por Júlio Cesar Góes às 20h42
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PEQUENO SUTRA DA MAIS COMPLETA IGNORÂNCIA

Dancers, painted in a cave in Dunhuang, China.
não sei migrar para o sul quando chega o verão,
nem caminhar sobre o carvão em brasa
carroças já não passam por minha boca
desconheço regras de retórica, o manejo de
sombras, tipos exóticos de peixes, datas e
aparatos de cerimônia
sei que tenho 32 dentes, leio livros e jornais,
vou ao mercado e ao cinema, escuto música
clássica e popular, e posso dizer de cor os
números dos meus documentos, além de uns
poucos poemas aprendidos há muito tempo
teimo também em me lembrar dos conselhos dos amigos, que permanecem vagando desacertados entre frases que de algum modo saltam prontas
de minha garganta
não posso, apesar de grandes esforços, distinguir
o fútil do necessário, o que me vale tantas horas misturando fadiga e prazer
nenhum balanço pode ser feito
apesar de meus olhos e meus pés se
considerarem auto-suficientes na avaliação das distâncias, acabo sempre por tropeçar numa
pessoa ou numa pedra
Caio Meira
Escrito por Júlio Cesar Góes às 06h55
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CANAIS DE POTÁSSIO EM NEURÔNIO

Escrito por Júlio Cesar Góes às 23h32
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CAÇADA

A hunting scene, painted in a cave in Dunhuang, China.
A demanda terminará em risos
e tu te irás absolvido.
Horácio
Escrito por Júlio Cesar Góes às 22h53
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COMO SERÃO AS CIDADES DO FUTURO?

Turning Torso, de Santiago Calatrava
O século 20 trouxe uma enorme quantidade de pessoas para as cidades, que cresceram, sobretudo aqui na Europa, de dezenas para milhões de habitantes praticamente em duas gerações, em menos de 30, 50 anos, mas creio que agora esse ritmo vai se acalmar. E não haverá possibilidade de ver uma cidade de 2.000 habitantes passar a ter 2 milhões, como vimos. O século 21 será um tempo de reconciliação com a cidade, em que, com a melhora dos transportes urbanos e da infra-estrutura, elas voltarão a renascer como lugares em que será agradável viver.
Santiago Calatrava
Escrito por Júlio Cesar Góes às 14h06
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A VIAGEM
Cinco horas e 43 minutos da manhã. Foi o instante exato. Como posso saber, é mais um mistério – mas o menor deles. Sei que o carrilhão no corredor soara as cinco badaladas, mas os minutos, 43, talvez eu tenha contado, segundo a segundo, pelas batidas do meu coração, pelo pulsar do sangue que ainda me corria nas veias, não sei. Minha lucidez era tamanha que podia medir tudo, ouvir tudo, sentir tudo, preso de uma atenção sobrenatural. E, enquanto contava os segundos, ouvia os pássaros anunciando a manhã, seus pios e arrulhos, sua movimentação nos galhos que se debruçavam sobre minha sacada. Tinha os olhos fechados, mas sabia que, se os abrisse, poderia enxergar cada pluma nos corpos daqueles pássaros, cada veio em cada folha das árvores, cada pequeno verme ou inseto, toda a vida secreta que pulula nos vegetais. Todos os meus sentidos estavam despertos, mais do que despertos, ativados, refinados, afinados numa sintonia maior do que a vida – a sintonia da morte.
Sim, porque àquela hora – cinco horas e 43 minutos da manhã – eu morri.
Cinco horas e 43 minutos. Era o dia 20 de março de 1860. Tinha eu 68 anos. Morri naquela manhã, morri em meio ao canto dos pássaros, morri como numa vertigem, morri e, enquanto morria, meus olhos etéreos foram enxergando cada vez mais, cada vez mais longe. Vi tudo, a um só tempo, no quarto e nos jardins, na cidade e no mundo, no universo inteiro. Vi um rato cruzar um canto do aposento, enquanto lá fora, muito longe, uma bela mulher de pele cor de ouro, envolta em véus coloridos, atravessava a rua com um cântaro de barro equilibrado na cabeça. Vi exércitos inteiros vencendo planícies geladas, vi cavernas, florestas luxuriantes. Vi homens e mulheres, crianças e velhos, ricos e pobres, de todas as raças, chorando ou felizes, olhos súplices, bocas entreabertas. Vi rostos, muitos rostos. Impossível condensar em palavras tudo o que vi naquele exato instante, cinco horas e 43 minutos da manhã, a hora da minha morte, mas, de tudo, talvez a visão mais maravilhosa e terrível tenha sido a de meu próprio corpo inerte sobre a cama, aquela carcaça velha e doente que já não me continha, já não me prendia. Ao vê-la, com meus olhos imateriais, com o corpo espectral que pairava alguns metros acima da cama – soube que estava livre. E, livre, voei.
Trecho do conto de terror inédito escrito por Heloisa Seixas,
a partir do relato "A segunda vida", um original de Machado de Assis
Escrito por Júlio Cesar Góes às 23h27
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PORTRUDE FLOW

Obra de Sachiko Kodam (2008)
Escrito por Júlio Cesar Góes às 14h20
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