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O VASO PARTIDO
“O vaso onde morre essa verbena foi rachado pelo golpe de um leque; foi uma batida leve, nem ruído fez. Mas a rachadura, muito fina, foi roendo o cristal pouco a pouco, numa caminhada invisível e firme e se ampliou lentamente. A água fresca fugiu gota a gota, o sumo das flores esgotou-se; ninguém ainda se deu conta, não toquem, ele está quebrado. Muitas vezes a mão que amamos, esbarrando em nosso coração, o magoa; depois o coração vai se partindo sozinho e a flor de seu amor morre; ainda intacto aos olhos do mundo, ele sente aumentar, e chora baixinho, o ferimento fino e profundo: está quebrado, não toquem”. Sully Prudhomme
Escrito por Júlio Cesar Góes às 11h47
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NOITES DE JUNHO
Noite fria, tão fria de junho Os balões para o céu vão subindo Entre as nuvens aos poucos sumindo Envoltos num tênue véu Os balões devem ser com certeza As estrelas aqui desse mundo As estrelas do espaço profundo São os balões lá do céu Balão do meu sonho dourado Subiste enfeitado, cheinho de luz Depois as crianças tascaram Rasgaram teu bojo de listas azuis E tu que invejando as estrelas Sonhavas ao vê-las ser astro no céu Hoje, balão apagado, acabas rasgado Em trapos ao léu. de João de Barro e Alberto Ribeiro
Escrito por Júlio Cesar Góes às 20h56
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BIG BANG

“Black Gold II” (2006) by Yinka Shonibare.
Escrito por Júlio Cesar Góes às 14h47
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BLOOMSDAY
Num dia do homem estão os dias do tempo, desde aquele inconcebível dia inicial do tempo, em que um terrível Deus prefixou os dias e agonias, até esse outro em que o ubíquo rio do tempo terreal retorne à fonte do Eterno, e que se apague no presente o ontem, o futuro, o que ora é meu. Entre a alba e a noite se situa a história universal. Assim, de noite vejo a meus pés os caminhos do hebreu, Cartago aniquilada, Inferno e Glória. Dá-me, Senhor, coragem e alegria para escalar o pico deste dia. Cambridge, 1968
"James Joyce" poema de Jorge Luís Borges Nova Antologia Pessoal tradução de Maria da Piedade M. Ferreira 2a ed. Lisboa : Difel,. 1987.
En un día del hombre están los días del tiempo, desde aquel inconcebible día inicial del tiempo, en que un terrible Dios prefijó los días y agonías hasta aquel otro en que el ubicuo río del tiempo terrenal torne a su fuente, que es lo Eterno, y se apague en el presente, el futuro, el ayer, lo que ahora es mío. Entre el alba y la noche está la historia universal. Desde la noche veo a mis pies los caminos del hebreo, Cartago aniquilada, Infierno y Gloria. Dame, Señor, coraje y alegría para escalar la cumbre de este día. em Elogio de la Sombra de Jorge Luis Borges
Escrito por Júlio Cesar Góes às 13h12
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O BRASILEIRO
"O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade".
Nelson Rodrigues
Escrito por Júlio Cesar Góes às 01h51
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VERMELHO
Gostar de ver você sorrir, Gastar das horas pra te ver dormir Enquanto o mundo roda em vão Eu tomo o tempo. O velho gasta solidão Em meio aos pombos na Praça da Sé, O pôr-do-sol invade o chão do apartamento. Vermelhos são seus beijos, Quase que me queimam, Que meigos são seus olhos, Lânguida face. Ver que tudo pode retroceder, Que aquele velho pode ser eu, No fundo da alma há solidão, E um frio suplica um aconchego. Vanessa da Mata
Escrito por Júlio Cesar Góes às 22h54
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FRONTEIRAS DA TÉCNICA
Em um dos primeiros testes com o sistema fly-by-wire, criado para a Força Aérea norte-americana, o avião, um F-16, caiu, matando o piloto. Entre essa primeira vítima e o desastre com o vôo 447, da Air France, vários acidentes, com os modernos Airbus, foram atribuídos à preponderância da inteligência artificial sobre o livre arbítrio dos pilotos. Em julho de 2007, em Congonhas, na maior tragédia aérea ocorrida no Brasil, segundo alguns especialistas, houve a aceleração do aparelho, em lugar da frenagem, e a impossibilidade da correção humana. "Desacelera!", gritou um dos pilotos. "Não consigo!", respondeu o outro. Tal como o HAL-9000, o computador central da nave de Uma odisséia no espaço, filme de Stanley Kubrick, de 1968, esses modernos sistemas eletrônicos de voo levam aos pilotos informações falsas. Em outubro do ano passado, um Airbus 330-303, da empresa Qantas, que decolara de Singapura rumo a Perth, na Austrália, voava a 37 mil pés, quando o piloto automático se desligou. Imediatamente o sistema fly-by-wire começou a sinalizar panes múltiplas no avião, que entrou em pique, caindo 650 pés. Restabelecido o nível do voo, houve nova queda de 400 pés. Os pilotos entraram em contato com o controle de terra e pediram autorização para descer, antes, em Learmonth. Felizmente era ao meio do dia, com boa visibilidade. O relatório do voo da Qantas, examinado pela Easa, levou a agência que controla a segurança aérea na Europa a advertir os pilotos dos Airbus dos riscos com o sistema, em nota emitida em 16 de janeiro deste ano. Nela, a agência relata o que ocorrera com o avião da Qantas, e avisa que o sistema fly-by-wire emitira aleatoriamente informações de perda de velocidade (stall), de aumento de velocidade e de outras alterações, que não correspondiam à realidade, além de levar o aparelho aos dois piques sucessivos. Seria de esperar que, diante dos acidentes já registrados, e da experiência vivida pelos pilotos da Qantas, a agência europeia de segurança aérea houvesse recomendado o recolhimento dos Airbus e a reconstrução do sistema fly-by-wire. Ao que parece, a vida humana é menos importante do que o interesse dos fabricantes e operadores de aviões, que tampouco tomaram qualquer providência. Esses acidentes repetidos desmentem a supremacia da máquina sobre o homem, na tomada de decisões. A metáfora do cavalo sempre foi usada por alguns pilotos, para explicar as suas relações com os aviões. Há, sem embargo, uma diferença: ser vivo, o cavalo tem, como o homem, o instinto de sobrevivência, e, com a decisão de salvar a própria vida, ajuda a salvar o cavaleiro. Os computadores, não. Tal como Hal estava programado para assegurar o cumprimento da missão espacial da nave, mesmo contra a vontade de seus tripulantes, o sistema fly-by-wire foi programado para substituir funções humanas. Nos primeiros voos comerciais transatlânticos, havia cinco tripulantes na cabine: o comandante, o copiloto, o engenheiro de voo, o navegador e o radiotelegrafista. Primeiro foi eliminado o radiotelegrafista. Em seguida, dispensado o navegador. E a exacerbação da tecnologia, com o fly-by-wire, fez desaparecer o engenheiro de voo. Logo depois da histórica travessia do Atlântico Norte, em 1927, o grande piloto Charles Lindenbergh, ao relatar sua experiência, definiu o que o voo significava para ele. Outros conhecidos pilotos disseram mais ou menos a mesma coisa: "Havia momentos em que eu tinha a sensação de ter escapado da mortalidade, e, ao olhar a terra embaixo, me sentia como se fosse um deus". De todos os desafios vencidos pelo homem, ao longo dos milênios, o do voo é o que mais fascina. Talvez por isso mesmo tenha sido tão rápida a evolução dos aviões. Quarenta e um anos depois do primeiro voo de Santos Dumont, as hélices foram substituídas pela propulsão a jato, 14 anos mais tarde, em 1961, Gagarin iria ao espaço, abrindo a rota para que, em 1969, o homem chegasse à Lua. Muitos pensadores concluem que a tecnologia deve estar submetida a um imperativo ético, como lembra sempre o teólogo Leonardo Boff. Georg Friedrich Junger e outros reduzem a importância da técnica na vida dos homens, ao dizerem que ela significa mais trabalho, mais desperdício, mais destruição, maior opressão. Desastres como o da Air France nos conduzem à constatação de que a tecnologia não pode servir, ao mesmo tempo, à libertação do homem e à multiplicação ilimitada dos lucros, a Deus e a Mamon. O Deus do dinheiro tem em Tanatos, a divindade da morte, um sócio fiel. Por Mauro Santayana
Escrito por Júlio Cesar Góes às 09h20
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NÃO SEI QUANTAS ALMAS TENHO
Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem; Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser. O que segue não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo : "Fui eu ?" Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa
Escrito por Júlio Cesar Góes às 06h00
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