As garotas vão todas para a água, ao crepúsculo, quando o mar se dissipa, estendido. No bosque cada folha estremece, e elas surgem prudentes na areia e se sentam nas orlas. A espuma faz seu jogo agitado nas águas remotas.
As garotas têm medo das algas ocultas sob as ondas, que grudam nas pernas e ombros: onde o corpo está nu. Voltam à orla depressa, pelo nome se chamam, espreitando ao redor. Até as sombras do fundo do mar, no escuro, são imensas e movem-se titubeantes, atraídas por corpos que passam. O bosque é um refúgio mais calmo, no sol declinante, que o areal, mas as jovens morenas preferem assentar-se ao ar livre, em lençóis bem dispostos.
Todas elas se encolhem e apertam o lençol contra as pernas, mirando esse mar distendido como um prado ao crepúsculo. Alguma ousaria estar nua, agora, num campo? Do mar saltariam as algas que afloram os pés, agarrando e envolvendo seus corpos trementes. Estes mares têm olhos que às vezes reluzem.
A estrangeira sem nome, que nadava de noite só e nua, à penumbra da lua que muda, certa noite sumiu e não volta mais nunca. Era longa e talvez de uma alvura ofuscante, pois, do fundo do mar, alcançaram-na os olhos.
Cesare Pavese, em "TRABALHAR CANSA" tradução de Maurício Santana Dias
1. Uma pessoa que é boa com você, mas grosseira com o garçom, não pode ser uma boa pessoa.
2. As pessoas que querem compartilhar as visões religiosas delas com você, quase nunca querem que você compartilhe as suas com elas.
3. Ninguém liga se você não sabe dançar. Levante e dance.
4. A força mais destrutiva do universo é a fofoca.
5. Não confunda nunca sua carreira com sua vida.
6. Jamais, sob quaisquer circunstâncias, tome um remédio para dormir e um laxante na mesma noite.
7. Se você tivesse que identificar, em uma palavra, a razão pela qual a raça humana ainda não atingiu (e nunca atingirá) todo o seu potencial, essa palavra seria "reuniões".
8. Há uma linha muito tênue entre "hobby" e "doença mental".
9. Seus amigos de verdade amam você de qualquer jeito.
10. Nunca tenha medo de tentar algo novo. Lembre-se de que um amador solitário construiu a Arca. Um grande grupo de profissionais construiu o Titanic.
Era um prazer muito especial ver as coisas arderem, vê-las calcinar-se e mudar.
Punho de cobre na mão, armado desse imenso piton que cuspia o veneno da sua gasolina sobre o mundo, sentia o sangue bater-lhe nas têmporas e as suas mãos tornavam-se as mãos de uma espécie de maestro prodigioso dirigindo todas as sinfonias do fogo e do incêndio, ao ritmo das quais se desmoronavam os farrapos e as ruinas carbonizadas da história.
Avançou, entre um fulgor de pirilampos.
Teria gostado acima de tudo, segundo a velha tradição, de mergulhar no braseiro uma alcachofra presa na ponta de um pau, enquanto os livros, com um bater de asas, morriam no umbral da casa e no jardim. Enquanto os livros se estorciam entre nuvens de fagulhas e partiam, calcinados, com o vento.
É, foi maravilhoso te encontrar Rolou que nem corda e caçuá Fizemos um bom baião de dois Sem compromisso pra depois Foi fugaz feito chuva de verão Molhou, fecundou meu coração Semente brotou e deu roseira De paixão mais verdadeira É, ficar uma vez não satisfaz O meu sentimento pede mais Aqueles momentos de prazer Me marcaram pra valer Já usei celular, computador Mandei mil mensagens de amor Pergunto aos amigos por você Deixa tudo e vem me ver Tô amando, tô amando Louca por você Tô amando, tô amando Vem logo me ver Tô cansada de sofrer Tô amando, tô amando Louca por você Tô amando, tô amando Vem me pertencer Sem você não sei viver
Emygdio de Barros, hoje um nome conhecido da pintura brasileira. Ele estava internado há mais de 20 anos no Centro Psiquiátrico Nacional (CPN), no Engenho de Dentro, quando a Dra. Nise da Silveira criou ali os ateliês de arte e artesanato. Emygdio, que há 23 anos não falava, passou carregando uma trouxa de roupas sujas pelo pátio do hospital, quando foi cooptado por ela e convidado a trabalhar como encadernador de livros. Mas o que ele queria mesmo era pintar e, assim, com esse propósito, fez chegar às mãos do responsável pelo ateliê de pintura alguns desenhos seus. Eram tão bons que ele foi atendido imediatamente e passou a pintar sem cessar. Em breve, seu talento era reconhecido por artistas e críticos de arte. Certo dia, porém, manifestou a vontade de voltar para casa, no que foi atendido. Ficou dez anos com a família que, muito pobre e desinformada, não o estimulou a pintar. Foi assim que, inesperadamente, bateu às portas do gabinete da Dra. Nise, de maleta na mão, informando-a que desejava reinternar-se no hospital. "E por quê?", perguntou ela. "Porque quero voltar a pintar", respondeu ele. E ali ficou, pintando, até os 80 anos, quando foi transferido para um asilo de idosos.
Nós pensamos que ele mudaria tudo. Mas, 40 anos depois, a impressão que dá é que o pouso do Apollo-11 na Lua não fez muito sentido. Até a Nasa passou a achá-lo um tanto sem sentido, antes mesmo de o Programa Apollo completar seus dez pousos planejados. Os últimos três foram cancelados e o dinheiro foi desviado para o desenvolvimento do ônibus espacial, que, por sua vez, será cancelado assim que a construção da Estação Espacial Internacional for concluída. E, como se para enfatizar a futilidade de enviar humanos para o espaço, a Nasa já planeja cancelar a estação até 2016. Não simplesmente cancelá-la, mas fazê-la propositalmente cair no mar, antes que possa despencar sobre uma área habitada. Tanto esforço e tanto dinheiro gasto ao longo de décadas. E para quê? Venho refletindo intermitentemente sobre essa pergunta desde 16 de julho de 1969, quando assisti à ascensão dolorosamente lenta, mas retumbante, do foguete Saturno-5 de sua plataforma de lançamento em Cabo Canaveral (então Cabo Kennedy) e, quatro dias mais tarde, no centro de controle da missão, em Houston, Texas, vi a imagem borrada mostrada pela televisão de Neil Armstrong pisando sobre a superfície lunar. Para quê? Só agora é que encontrei a resposta. Fizemos o pouso na Lua precisamente porque ele exigiu tanto esforço e tanta despesa. Foi isso o que prendeu nossa atenção tantos anos atrás, e era isso o que o tornava tão incrivelmente empolgante, pelo menos para quem acompanhava os acontecimentos da primeira fila. O sentido do pouso na Lua ficou claro no discurso histórico do presidente Kennedy em 1961 anunciando a meta de pousar na Lua. "Optamos por ir à Lua nesta década", disse ele, fazendo referência também a outras formas de pesquisas espaciais, "não porque sejam fáceis, mas porque são difíceis -porque essa meta vai servir para organizar e medir as melhores de nossas energias e habilidades". Compreendo hoje que o que emocionou a mim e incontáveis outras pessoas em todo o mundo, 40 anos atrás, foi apenas em parte o fato de que seres humanos haviam tocado um corpo celeste que durante muito tempo se pensou estar fora de nosso alcance. Foi que nós -seres humanos mais ou menos como você e eu- tínhamos projetado e construído máquinas capazes de nos fazer atravessar um vazio de 386 mil quilômetros e pousar, tão gentilmente quanto uma pluma, sobre a Lua, sobre o próprio mar da Tranquilidade. O que impressionou especialmente a muitos de nós, jornalistas que cobríamos a missão, era que, até o dia do pouso lunar, o módulo de alunissagem nunca tinha sido testado. Era demasiado frágil para que se pudesse testá-lo na Terra, com sua gravidade maior. Ele teria caído. A cabine superior que levantou Armstrong e Buzz Aldrin da Lua era fraca demais para decolar na Terra. A primeira vez em que todo aquele aparato desajeitado seria testado seria com duas vidas humanas em risco. Como Kennedy previu, a missão foi difícil e, de fato, "organizou e mediu as melhores de nossas energias e habilidades". Ficamos espantados e impressionados. E a mesma reação tiveram os soviéticos, o que, é claro, foi uma parte grande da razão que levou o governo americano a investir tanto esforço e dinheiro. O programa do ônibus espacial, que veio a seguir, nunca impressionou ninguém em grau comparável. Os foguetes eram menores. O destino era relativamente próximo -um lugar que já tínhamos visitado. E quase nunca ficou exatamente claro por que precisávamos enviar pessoas para apertar botões no espaço que poderiam ter sido pressionados por controle remoto desde Houston, com muitíssimo menos esforço e gasto. É verdade que teria sido quase impossível consertar o telescópio espacial Hubble com missões robóticas. Mas poderíamos ter construído e lançado vários outros telescópios comparáveis ao Hubble, em foguetes não tripulados, pelo mesmo preço das missões do ônibus espacial, preço tão alto pelo fato de haver pessoas a bordo. Qual foi, então, o objetivo do ônibus espacial? Construir uma estação espacial, disseram os responsáveis pela política espacial. E qual era, perguntamos então, o objetivo da estação espacial? Aprendermos a viver no espaço, disse a Nasa. Em outras palavras, vamos ao espaço para aprendermos a estar no espaço. Parece um tanto quanto sem sentido. Mas o fato é que, 40 anos atrás, havia o aspecto da aventura: os bravos astronautas, o foguete retumbante, a ousadia do pouso na Lua, o esforço e o gasto! São coisas que nunca vou esquecer. A cobertura das missões do programa Apollo foi um dos grandes marcos de minha carreira jornalística. Durante anos depois disso eu saía de casa à noite, com meus dois filhos, para lhes apontar a Lua e lhes dizer que muito tempo atrás, numa era que, para eles, poderia muito bem ter sido pré-histórica, seres humanos voavam até a Lua e caminhavam em sua superfície -apenas para buscar pedras e trazê-las para casa. Eles são crianças da geração "Guerra nas Estrelas", e, para eles, aqueles pousos na Lua parecem bem sem sentido.
Entendo a necessidade de pessoas quererem achar um lugar para a sua fé na descrição científica do universo. Mas a raridade da vida complexa e de seres inteligentes não é esse lugar. O fato de um evento ser raro, ou de baixa probabilidade, não faz com que não possa ser explicado por argumentos científicos. Raridade não é milagre. Achar uma orquídea florescendo na avenida Paulista, ver um tucano sobrevoando o aeroporto de Congonhas, ganhar na loteria, engravidar aos 44 anos ou ver a explosão de uma supernova são todos eventos raros. Nenhum deles é um milagre sobrenatural, embora possa ser tentador para alguns atribuí-los a algo inexplicável. Essa é a diferença fundamental entre ciência e fé. Na fé, o raro é atribuído a causas sobrenaturais. Na ciência, é um fenômeno natural de pouca frequência. Se a vida complexa for rara no Universo, nós passamos a ser a exceção, não a regra. Apesar de ser tentador atribuir nossa raridade (ou a dificuldade dos vários passos evolucionários até a vida complexa) a um milagre sobrenatural, mais significativo é compreender a importância de sermos um raro acidente da Natureza. Em vez de darmos graças a Deus por estarmos aqui, devemos tomar nosso destino em nossas mãos e fazer todo o possível para preservar a vida nesse planeta e, por que não, espalhá-la pelo Universo.
"Viajar, pergunta o personagem de Delatour, não é entregar-se ao ritual (ainda que simbólico) do canibalismo? Todo viajante, mesmo o mais esclarecido, corre o risco de julgar o outro. Consciente ou não, intencional ou superficial, tal julgamento quase sempre deforma o rosto alheio, e esse rosto deformado espelha os horrores do estrangeiro. Nesse convívio com o estranho, o narrador privilegia o olhar: o desejo de possuir e ser possuído, a entrega e a rejeição, o temor de se perder no outro"
No conto: A Natureza Ri da Cultura, em A Cidade Ilhada de Milton Hatoum
Convenhamos que religião e nosso conhecimento do mundo não andam exatamente de braços dados. De um modo geral, virgens não costumam dar à luz (especialmente não antes do desenvolvimento de técnicas como a fertilização "in vitro") e pessoas não saem por aí ressuscitando. Em contextos normais, um homem que veste saias e proclama transformar pão em bife sempre que dá uma espécie de passe seria prudentemente internado numa instituição psiquiátrica. E não me venham dizer que a transubstanciação é apenas um simbolismo. Por afirmar algo parecido --a "impanatio"--, o teólogo cristão Berengar de Tours (c. 999-1088) foi preso a mando da Igreja e provavelmente torturado até abjurar sua teoria. Ele ainda teve mais sorte que o clérigo John Frith, que foi queimado vivo em 1533 por recusar-se a acatar a literalidade da transformação.
Quando se trata de religião, aceitamos como normais essas e muitas outras violações à ordem natural do planeta e à lógica. A pergunta que não quer calar é: por quê?
Ou bem Deus existe e espera de nós atitudes exóticas como comer o corpo de seu filho unigênito ou o problema está em nós, mais especificamente em nossos cérebros, que fazem coisas estranhas quando operam no modo religioso. Fico com a segunda hipótese. Antes de desenvolvê-la, porém, acho oportuno lembrar que a própria pluralidade de tabus ritualísticos depõe contra a noção de Verdade religiosa.
Se existe mesmo um Deus monoteísta, o que ele quer de nós? Que guardemos o sábado, como asseguram judeus e adventistas; que amemos ao próximo, como asseveram alguns cristãos; que nos abstenhamos da carne de porco, como garantem os muçulmanos e de novo os judeus; ou que não façamos nada de especial e apenas aguardemos o Juízo Final para saber quem são os predestinados, como propõe outra porção dos cristãos?
Talvez devamos eliminar os intermediários e extrair a Verdade diretamente nos livros sagrados. Bem, o Deuteronômio 13:7-11 nos manda assassinar qualquer parente que adore outro deus que não Iahweh; já 2 Reis 2:23-24 ensina que a punição justa a quem zomba de carecas é a morte. Mesmo o doce Jesus, fundador de uma religião supostamente amorosa, em João 15:6, promete o fogo para quem não "permanecer em mim".
E tudo isso em troca do quê? A Bíblia é relativamente econômica na descrição do Paraíso, mas o nobre Corão traz os detalhes. Lá já não precisamos perder tempo com orações e preces, poderemos beber o vinho que era proibido na terra (Suras 83:25 e 47:15), fartar-nos com a carne de porco (52:22) e deliciar-nos com virgens (44:54 e 55:70) e "mancebos eternamente jovens" (56:17). O Jardim das Delícias parece oferecer distrações para todos os gostos, mas, se banquetes, prostíbulos e saunas gays já existem na terra, por que esperar tanto... --poderia perguntar-se um hedonista empedernido.
Volumes e mais volumes podem ser escritos para apontar as incoerências e desatinos dos chamados textos sagrados. Se acreditamos que um Deus pessoal chancelou ou ditou cada uma dessas obras, temos, na melhor das hipóteses, um Ser Supremo com transtorno dissociativo de identidade, também conhecido como personalidade múltipla. Espero que, no fim dos tempos Ele esteja judeu de novo. Tenho um primo que faria bom uso do Paraíso...
Voltando às coisas sérias, uma possibilidade mais plausível é que o chamado cérebro espiritual, os módulos neuronais que criam e processam ideias religiosas, seja menos permeável aos circuitos lógicos. Quem faz uma interessante análise do problema é o médico e geneticista americano David Comings em seu monumental "Did man create God?", uma ampla revisão de quase 700 páginas em que o autor esmiúça o caso de Deus sob todas as vertentes da ciência, em especial a neurologia.
Para ele, ao contrário do mais provocativo Richard Dawkins, a religião dá prazer, foi fundamental na evolução de nossa espécie e só será extinta quando o último homem morrer. Mais importante, Comings acredita que os cérebros racional e espiritual, embora funcionem de modo independente um do outro, podem de algum modo ser conciliados no que o autor chama de "espiritualidade racional". Cuidado aqui, o espiritual é uma esfera que abarca a religião, mas é mais ampla do que ela. Inclui outras tentativas de tocar a transcendência.
Num resumo algo grosseiro da mensagem central de Comings, só o que precisaríamos fazer é admitir que foi o homem que criou a ideia de Deus e escreveu os livros supostamente sagrados. Assim, nenhuma religião é verdadeiramente "a Verdadeira" ou intrinsecamente superior às concorrentes. Já não é necessário que guerreemos para descobrir se é o Deus cristão ou muçulmano que está certo. No limite, entregamos Deus para conservar uma espiritualidade menos belicosa, que nos permita a experimentar a transcendência a baixo custo.
É uma proposta engenhosa, mas, receio, muito difícil, quase impraticável. O monoteísmo já traz em germe a ideia de que existe um único caminho para a salvação e todo os que não o seguem estão condenados. Embora a maioria das pessoas consiga enxergar e valorizar as semelhanças entre os Deuses das várias religiões, sempre emergirão grupos mais intolerantes que exigirão o exclusivismo. Por paradoxal que pareça, não se os pode acusar de irracionais. Eles apenas levam realmente a sério o que está escrito. Numa abordagem puramente lógica, o Deus dos católicos e o de Calvino, por exemplo, não podem estar certos ao mesmo tempo. O conflito é uma decorrência do cérebro racional processando uma ideia espiritual.
É claro que podemos e devemos incentivar posições pró-tolerância como a de Comings. Os níveis de guerras religiosas variaram ao longo das épocas, num processo que certamente tem algo a ver com o modo mais ou menos pluralista utilizado pelos clérigos em suas prédicas. Não devemos, contudo, ser ingênuos a ponto de imaginar que o conflito possa ser extinto. O mundo é um lugar cheio de problemas.
De minha parte, embora ímpio contumaz, também acredito em transcendência. Para mim, ela está em atividades biologicamente inúteis às quais nos dedicamos e atribuímos valor, como literatura, música, pintura, filosofia e, por que não?, teologia. Elas podem ser extremamente prazerosas e, no limite, preencher nossas vidas com um significado que a natureza apenas não lhes dá. Mas não é porque a literatura nos leva à transcendência que devemos achar que Aquiles ou Brás Cubas existem.
Certa vez, fizeram uma homenagem ao boxeador Joe Louis, na época o negro mais famoso do mundo, e alguém terminou um discurso dizendo que ele era um orgulho para sua raça – a raça humana. Muitos anos depois, um cômico diria a mesma coisa de Michael Jackson, mas com uma maldade final. Ele era um orgulho para sua raça – fosse ela qual fosse! Michael apagara todos os traços da sua raça original do rosto e o resultado não se parecia com nenhum grupo étnico conhecido. Nunca ficou muito claro, sem trocadilho, que rosto ele queria ter. Diziam que seu ideal de beleza era a Diana Ross, uma prototípica negra com feições brancas, mas ele não se contentou em ter seu nariz afilado e seus lábios finos. Continuou branqueando e esculpindo o próprio rosto até transformá-lo na máscara grotesca de um ser indefinível. Talvez procurasse ser de uma raça além da humana. O dinheiro não traz a felicidade (manda buscar, disse um cínico). Mas há séculos se usa a riqueza para tentar vencer tudo que traz a infelicidade: a feiura, a raça indesejada e outras consequências da fatalidade genética, e o maior inimigo da nossa vaidade, a passagem do tempo. As múmias e todos os elaborados arranjos fúnebres para garantir a eternidade dos faraós existiam para combater esta grande injustiça: de nada adiantavam seu poder e sua fortuna se os faraós se degradavam e acabavam como qualquer servo. Não houve rei ou rico da Idade Média que não investisse na alquimia, que era a ciência de alterar a natureza das pedras e dos homens, ou pelo menos dos homens que podiam pagar. Hoje existe uma indústria de cosméticos e mágicas rejuvenescedoras que movimenta bilhões e cujo objetivo final é o mesmo dos sacerdotes do Antigo Egito, nos embalsamar contra os estragos do tempo e nos garantir a vida eterna – enquanto dure. Michael Jackson também não achou justo ser rico e poderoso como um faraó e não poder alterar não apenas seu nariz como seu destino. Martin Luther King resgatou a autoestima dos negros americanos com uma frase, mas Michael Jackson não concordou que black era beautiful. No fim, nem se contentou em ser branco, como não se conformou em envelhecer como qualquer um. Foi um grande artista e a comoção causada pela sua morte prematura é compreensível. Mas Michael Jackson foi, antes de mais nada, um trágico herói da insubmissão à vida.