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    Ninho do Gavião da Serra


    CHAPÉU

    Foto de Júlio Cesar Góes. Feira de São Bento, Cascavel, CE.

     

    Uso o dia inteiro
    Um chapéu que não estava
    Na minha cabeça



    Em "Nuvens de Iowa"
    haicais/poemas de Jack Kerouac
    Tradução de José Lira



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 06h31
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    DANCE OF A SEA DRAGON

    The leafy sea dragon, Phycodurus eques.


    Assista UOL Busca aqui o video "dance of a sea dragon"  da BBC  



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 10h05
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    FILME DE CAUBÓI

    Tudo quanto tenho dito deve convencer suas excelências meus leitores de que não abusei, em momento algum, do sentimentalismo. Tentei antes ser sucinto, direto, limitando-me de saída a este duplo cartão de apresentação: uma cabeça cortada e uma pele nua e desprotegida. Isso, escreveu alguém há muito tempo, não é grave: a tragédia é vedada ao mundo moderno.Tudo para nós se torna melodrama, soap opera, folhetim, filme de caubói.O sucesso do cinema de caubói (a épica moderna, diria Alfonso Reyes, a saga dos da planície, já não do mar) é a direta simplicidade com que o espectador distingue o Bom do Mau. Este se veste de preto. Aquele de branco. O vilão usa bigode. O herói se raspa. O bom escova os dentes. O mau cospe mau hálito. O herói olha de frente. O bandido, de lado.

    Trecho de "A VONTADE E A FORTUNA"
    Autor: Carlos Fuentes
    Tradução: Carlos Nougué



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h10
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    GAROTO

    Foto de Júlio Cesar Góes. Feira de São Bento, Cascavel, CE.



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 20h49
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    A MENINA E O PILÃO

    Foto de Júlio Cesar Góes. Feira de São Bento, Cascavel, CE.



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 21h35
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    DIÁLOGO ENTRE UMA CRIACIONISTA E UM EVOLUCIONISTA

    Uma criacionista diz ao evolucionista britânico J. B. S. Haldane
    que simplesmente não podia acreditar que,
    mesmo em bilhões de anos, se pudesse
    "ir de uma célula única a um complicado corpo humano".
    Haldane retruca: "Mas, madame, a sra. mesma fez isso.
    E em apenas nove meses".



    Diálogo citado no livro "The Greatest Show on Earth - The Evidence for Evolution"
    de Richard Dawkins



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 21h47
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    DOIS SORRISOS PARA O FUTURO

    Maria Elisa e seu Totonho. Em algum lugar do passado.

     

    Fui batizado com o nome Júlio Cesar, mas o que vou contar aconteceu antes quando eu ainda era uma alma sem rumo, escondida em algum lugar do purgatório. Eu não tinha nenhuma intenção de reencarnar, estava me sentindo muito bem onde estava, e não via necessidade de voltar para o mundo dos vivos. Por isso, já tinha recusado pelo menos duas propostas de nascimento e agora eu me esquivava de ter que dizer o sim inevitável. Foi quando meu Anjo da Guarda finalmente me encontrou. “Estava te procurando por muito tempo”, o anjo falou, como se um anjo da guarda não soubesse, o tempo todo, por onde anda seu protegido. “Eu estive viajando para conhecer o purgatório e suas almas”, disse. “Espero que tenha aproveitado bastante”, ele me respondeu irônico. Até os anjos da guarda têm direito de gozar da cara de suas almas, o meu pelo menos está de eterno bom humor. “Precisamos conversar para decidir sobre outro tipo de viagem, passar uns tempos sendo humano entre humanos vai ser bom para você”, disse o anjo entrando logo na conversa. “Ser humano é bom, um ser criado para ser criativo; mas a humanidade é muito desunida, briga além da conta, parece que não sabe fazer as pazes e não aprende a repartir os frutos enquanto desaprende a cuidar do próprio planeta”, respondi. “Se você está assim tão cheio de boas intenções, então seu lugar é na Terra mesmo”, foi a resposta. “Mas não se preocupe tenho um lugar especial para você nascer, veja aqui”, e puxou uma fotografia onde aparecia uma paisagem deslumbrante de uma cidade banhada pelo mar, com a qual fiquei encantado à primeira vista e que iria chamar para sempre de cidade maravilhosa. O anjo, como um bom corretor de seguros de vida, fez a propaganda: “é um belo país, cheio de riquezas naturais, povoado por um povo pacífico, preferem futebol e carnaval a uma guerra, com todo o futuro pela frente”. É claro que ele não me falou dos probleminhas, os quais tive a vida inteira para ir descobrindo, mas também não perguntei. Aceitei o encargo de nascer no Brasil, contando que fosse na cidade maravilhosa. Passamos então ao segundo ponto da discussão: os genitores. Mais uma vez ele me entrega uma foto: era a imagem de um casal, sentado no gramado de uma praça, sorrindo para a objetiva. Aqueles dois pareciam olhar para o futuro que estava naquele momento olhando, hipnotizado, para eles através da fotografia. “É um casal bonito e inteligente, não tem perigo de você sair muito feio ou muito burro”, disse o anjo zombeteiro. “Eles esperam seu caçula, e você seria então o mais novo de duas irmãs, o queridinho da família, o que acha?” Perguntou o anjo. Eu já não achava mais nada, estava completamente seduzido pelo simpático casal que me olhava, ela com o sorriso brilhante da felicidade nos lábios e ele com o semblante da serena amizade no rosto. “Tem mais um detalhe que eu sei que você vai gostar”, disse. “Qual?” Perguntei. “O parto vai ser cesariano, nem trabalho para nascer você vai ter”, disse tirando sarro da minha alma, que caiu na gargalhada junto com o anjo. O resto da história todo mundo conhece, já virou até livro e está aqui exposta em imagens para que se possa sempre recordar. Agora o casal da fotografia já ultrapassou os sessenta anos de namoro, comemoram bodas de diamante, ou será de jade, e me intimaram a falar alguma coisa, no dia da festa. Fui para cama pensando no que dizer. Adormeci, e no sonho meu Anjo da Guarda apareceu. Conversamos longamente sobre a fidelidade e os segredos para se viver um grande amor. Mas a única frase que me ficou foi: “só sabemos a resposta vivendo”. Acordei com a estranha sensação de que o anjo do sonho era o rapaz que olhava o futuro de dentro da fotografia. Ele coloca a mão no ombro de sua amada, os dois sorriem para mim, e dizem: seja bem vindo.



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h19
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    A GAROTA DO ESPELHO

    Foto de Júlio Cesar Góes. Feira de São Bento, Cascavel, CE.



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h10
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    BARBEIROS DE CASCAVEL

    Foto de Júlio Cesar Góes. Feira de São Bento, Cascavel, CE.



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 23h44
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    ANDA BELA

    Foto de Júlio Cesar Góes. Feira de São Bento, Cascavel, CE.



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 02h38
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    PARANGOLÉS

    Foto de Júlio Cesar Góes. Feira de São Bento, Cascavel, CE.

     

    Tecidos coloridos deitados na feira,
    esperam pacientes, corpos para os vestir
    para fazê-los dançar... e girar... e cantar...


    Aynos Zeog, no "Livro dos Haikais Imaginários"



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 07h08
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    CHÃO DE PEDRAS

    Foto de Júlio Cesar Góes. Praça da Imprensa, Fortaleza, CE.

     

    Espalham-se ousadas no chão da praça,
    as sombras dos elementos da manhã,
    suave vento varrendo folhas sobre as pedras.



    Aynos Zeog, no "Livro dos Haikais Imaginários"



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h47
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    CHAMINÉ D'AGUA

    Foto de Júlio Cesar Góes. Praça da Imprensa, Fortaleza, CE.

     

    Há um penacho
    de fumo cor
    de carne pálida no azul

    do céu. Círculos
    de prata
    enlaçam espaçadamente

    a estrutura amarela de
    tijolos e refulgem
    nesta luz

    ambarina - não
    do sol não do
    pálido sol mas

    do seu irmão
    legítimo
    o outono

    Poema "A chaminé amarela"
    William Carlos Williams, Antologia Breve
    (tradução de José Agostinho Baptista),
    Assírio& Alvim.



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 08h43
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    HOMEM SENTADO NO BANCO DA PRAÇA: OBSERVA A MANHÃ

    Foto de Júlio Cesar Góes. Praça da Imprensa, Fortaleza, CE.



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 17h04
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    EU NÃO ESQUEÇO NADA

    UOL Busca



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 15h09
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    O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA

    água-viva, Porpita

    O maior espetáculo da Terra é a natureza,
    sua engenhosidade, sua complexidade
    nascida de uma base muito simples.



    Richard Dawkins



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 21h49
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    A COLEÇÃO

    Pazé. "a coleção", 2009

    Nos séculos 17 e 18, havia um gênero de pintura que figurava grandes coleções de obras de arte. Embora pequenas, eram telas atordoantes. Representavam dezenas de quadros e esculturas, recobrindo as paredes e o solo, propriedades de amadores ricos. Imagens de museus particulares, naqueles tempos em que museus públicos não havia.
    Pazé tomou um desses, dos vários que Teniers, o Jovem [1610-90], pintou para o arquiduque Leopoldo Guilherme, governador dos Países Baixos espanhóis, cuja formidável coleção formou o núcleo primeiro do Museu de História da Arte de Viena. Pazé o reproduziu em telas imensas que, dispostas frente a frente, invertem-se como se refletidas em espelho. Mas trocou a coleção do arquiduque, visível na tela, por uma outra, de sua imaginação. Um museu imaginário.
    Substituiu também as pinturas que aparecem dentro dos quadros presentes (o quadro dentro do quadro dentro do quadro), o que leva a uma fascinação infinita de descobertas. Escolheu obras com presenças humanas. Elas espreitam o espectador, como que aprisionado dentro de uma ratoeira de mil saídas impossíveis.




    JORGE COLI



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h11
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    O MAL IRREPARÁVEL

    Slave Auction, by Jean-Léon Gérôme



    Não se é jamais desculpável ser-se mau,
    mas há algum méritro em saber que se é;
    o mais irreparável dos vícios é fazer o mal por burrice.


    Charles Baudelaire, em "Pequenos poemas em prosa"
    Tradução de Gilson Maurity



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 19h20
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    DIÁLOGO ENTRE A MORTE E A MODA

    Moda. Madame Morte, madame Morte.
    Morte. Espera que a hora chegue, e virei sem que me chames.
    Moda. Madame Morte.
    Morte. Vai com o diabo. Virei quando não quiseres.
    Moda. Como se eu não fosse imortal.
    Morte. Imortal? Passado é já mais que o milésimo ano que se acabaram os tempos dos imortais.
    Moda. Também a Madame petrarquiza como se fosse um lírico italiano do século XV ou XVIII?
    Morte. Aprecio os poemas de Petrarca, porque neles encontro o meu Triunfo, e porque falam de mim quase que em toda parte. Mas, enfim, sai de perto de mim.
    Moda. Vamos, pelo amor que tens aos setes pecados capitais, fica um pouco e olha-me.
    Morte. Olho-te.
    Moda. Não me conheces?
    Morte. Deverias saber que tenho uma vista ruim e que não posso usar óculos, porque os ingleses não fazem um que me sirva, e se caso o fizessem, eu não teria onde apóia-los.
    Moda. Eu sou a Moda, tua irmã.
    Morte. Minha irmã?
    Moda. Sim; não te lembras que nós duas nascemos da Caducidade?
    Morte. Que tenho eu de me lembrar, que sou inimiga capital da memória.
    Moda. Mas eu me lembro muito bem; e sei que ambas nos lançamos, de igual maneira, a desfazer e modificar continuamente as coisas aqui embaixo, embora tu sigas, para isso, por um caminho, e eu, por outro.

     

    Giacomo Leopardi



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 22h30
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    EU FUI CONVOCADA

    Quinta-feira, dez em ponto.

    Sou convocada cada vez com maior freqüência: às dez em ponto na quinta, às dez em ponto no sábado, na quarta ou na segunda. Como se os anos fossem uma semana, fico imaginando que depois do fim de verão logo teremos outra vez inverno.

    No trajeto até o bonde os arbustos voltam a emergir através das cercas, com suas frutinhas brancas. Como botões de madrepérola costurados embaixo, talvez até terra adentro, ou como migalhas de pão. Para cabecinhas de pássaros com bicos tortos, as frutinhas são pequenas demais, mesmo assim penso em cabeças de pássaros brancos. E isso dá vertigem. Prefiro pensar em flocos de neve no capim, mas aí a gente se perde, e pensar em giz nos dá sono.

    O bonde não tem horários fixos.

    Penso que é ele que chega rumorejando, se não forem os choupos com suas folhas duras. Está chegando, o bonde, e hoje me levará logo. Estou decidida a deixar o velho de chapéu de palha embarcar na minha frente. Quando cheguei ele já estava na parada, sabe lá fazia quanto tempo. Não parece frágil, mas é magro como sua sombra, meio corcunda, e abatido. Não tem bunda para encher os fundilhos, nem quadris, só os joelhos marcam a calça. Mas se no exato momento em que a porta do bonde se abrir ele resolver escarrar no chão, eu embarco antes dele. Quase todos os assentos estão livres, ele os examina com o olhar e fica de pé. Como é que gente tão velha não fica cansada e insiste em ficar de pé mesmo quando se pode sentar. Às vezes, ouvimos os velhos dizerem: Já vamos ficar deitados tempo suficiente no cemitério. Mas nem estão pensando em morrer, e têm razão. Não há uma ordem fixa, jovens também morrem. Sempre que não preciso ficar de pé, eu me sento. Viajar sentado é como caminhar sentado. O homem me examina, é fácil perceber isso no carro vazio. Hoje estou sem vontade de conversar, senão perguntaria o que é que ele vê em mim. Nem se apercebe que seu olhar me incomoda. Lá fora passa metade da cidade, alternando-se entre árvores e casas. Dizem que gente de idade sente mais do que pessoas jovens. Talvez ele até perceba que hoje tenho na bolsa uma toalhinha de rosto e pasta de dentes, além de uma escova. Mas nada de lenço, pois não pretendo chorar. Paul nem percebeu como eu estava com medo de que hoje Albu pudesse me levar para a cela debaixo do seu gabinete. Eu não lhe disse nada; se acontecer, ele vai saber logo. O bonde anda devagar. O chapéu de palha do velho tem uma fita manchada, provavelmente de suor ou chuva. Como sempre, Albu vai me saudar com um beijo na mão molhado de cuspe.

    O major Albu pega minha mão nas pontas dos dedos e aperta tanto minhas unhas que quase solto um grito. Beija meus dedos com o lábio inferior, o superior fica livre para poder falar. Sempre beija minha mão do mesmo jeito, mas ao falar, cada vez diz uma coisa diferente:

    Ora, ora, hoje seus olhos estão inflamados.
    Parece que você está ficando com buço, meio cedo na sua idade.
    Ora, hoje a mãozinha está gelada, espero que não sejam problemas de circulação.
    Ora, ora, sua gengiva está murchando como se você fosse a sua avó.

    Minha avó não envelheceu, eu digo, ela nem teve tempo de perder os dentes. Albu deve saber o que aconteceu com os dentes de minha avó, por isso menciona o fato. Uma mulher sempre sabe como está sua aparência a cada dia. E que um beijo na mão, primeiro, não deve doer, segundo, não deve ser molhado, terceiro, deve ser dado nas costas da mão. Homens sabem ainda melhor do que mulheres como deve ser um beijo na mão, certamente também Albu. Toda a cabeça dele cheira a Avril, um perfume francês que meu sogro, o comunista de perfumaria, também usava. Nenhuma outra pessoa que conheço compraria esse perfume. No mercado negro custa mais do que um terno numa loja. Talvez se chame Setembro, mas eu sempre reconhecerei aquele odor amargo e fumacento de folhas queimando.

    Quando me sento junto da mesinha, Albu vê que esfrego os dedos na saia, não apenas para voltar a senti-los, mas também para limpar o cuspe. Ele revira seu anel de sinete e dá um sorrisinho. E daí, a gente pode limpar o cuspe, ele seca sozinho e não é venenoso. Todo mundo tem cuspe na boca. Tem gente que cospe na calçada e esfrega com o sapato porque nem mesmo na calçada se deveria cuspir. Albu certamente não cospe na calçada, ele banca o cavalheiro refinado nesta cidade onde não o conhecem. Minhas unhas doem, mas nunca ficaram roxas do seu aperto. Elas acabam se descontraindo, como acontece quando está muito frio e a gente entra num lugar quente. O veneno é eu acreditar que meu cérebro escorrega para a frente, sobre a cara. É humilhante, não há outra palavra, sentir-se descalça no corpo inteiro. Só que, quando a melhor palavra ainda não é suficiente, não se pode dizer muita coisa com palavras.



    Trecho de "O Compromisso"
    Autor: Herta Müller (Nobel de Literatura 2009)
    Tradução de Lya Luft



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 07h25
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    EU SEI QUE VOU TE AMAR

    Eu sei que vou te amar
    Por toda a minha vida eu vou te amar
    Em cada despedida eu vou te amar
    Desesperadamente, eu sei que vou te amar
    E cada verso meu será
    Prá te dizer que eu sei que vou te amar
    Por toda minha vida
    Eu sei que vou chorar
    A cada ausência tua eu vou chorar
    Mas cada volta tua há de apagar
    O que esta ausência tua me causou
    Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
    A espera de viver ao lado teu
    Por toda a minha vida



    Composição: Tom Jobim / Vinícius de Moraes



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 07h19
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    A CURANDEIRA DA JUVENTUDE

    Passou-se, pois, uma semana. Passaram-se dez dias. O prazo de minha convelescença chegava ao fim e uma noite, quando reinava a famosa paz dos sepulcros, Elvira me disse:

    - Jovem, só lhe falta uma coisa para ficar bom dos nervos.

    Ato contínuo, despiu-se diante de mim, e eu pude ser testemunha de minha própria imaginação. O que agente pensa pode ser superior ou inferior à realidade. Eu temia, quando Elvira desabotoou a camisa, que seus seios não fossem como os imaginava. Que seu ventre, seu púbis, suas nádegas contradissessem a minha fantasia. Não foi assim. A realidade superou a ficção. O silêncio de Elvira durante nossos quinze minutos de amor só foi rompido por um suspirozinho terrestre dela e por prolongado ai! meu que ela abafou, com delícia , tapando-me a boca com a mão.

    Melhor que meu prazer foi o sentimento de tê-lo dado a ela. Por mais que Elvira retomasse no ato não só a roupa, mas suas atitudes de enfermeira, eu sabia a partir de então que podia dar prazer a uma mulher e achei naquele momento que essa era a sabedoria máxima da vida e que tudo quanto eu aprendesse, dali por diante, não seria melhor e mais sábio que isso, embora isso, eu o soubesse também, jamais se repetisse extamente igual. Teria na minha vida amores mais longos, mais breves, mais ou menos importantes, mas nenhum suplantaria o amanhecer sexual nos braços de enfermeira Elvira, curandeira de minha juventude e quadrante de minha maturidade.

     

    Carlos Fuentes, em "A VONTEDE E A FORTUNA"

    Tradução de Carlos Nougué



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 19h54
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    SONHOS DO AVESSO

    Shorty Lungkarta Tjungurrayi’s “Mystery Sand Mosaic” (1974).

     

    A antiga donzela angustiada com as manifestações involuntárias de sua sexualidade reprimida - lembrem-se de que Freud relacionou o tabu da virgindade e a moral sexual entre as causas do mal-estar, no início do século 20 - hoje se sente culpada por não usufruir tanto do sexo, das drogas e do "rock and funk" quanto deveria. O obsessivo escrupuloso, acossado por fantasias perversas, agora se queixa de seu bom comportamento: queria ser um predador sem escrúpulos, eliminar os rivais, abusar sem pudor das mulheres. As pessoas vivem culpadas por não conseguirem gozar tanto quanto lhes é exigido. Culpadas por não alcançar o sucesso e a popularidade instantâneos, por perderem tempo em sessões de análise -culpados por sofrer. O sofrimento não tem mais o prestígio que lhe conferia o cristianismo. Sofrer não redime a dívida; ao contrário, reduplica os juros. Sem recurso à referência a autoridades repressivas que faziam obstáculo aos prazeres, as pessoas têm dificuldades em justificar seus sintomas. Não encontram a quem endereçar suas queixas ou apoiar seus ideais. 

     

     Maria Rita Kehl



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h17
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    MERCEDES SOSA - GRACIAS A LA VIDA

     



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h04
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    UM NOVO PASSO DE DANÇA

    Nossas quedas chegam ao infinito quando permitimos. Contudo, se soubermos torná-las um novo passo de dança, como diria Fernando Sabino, sairemos vencedores. E vencer, não significa necessariamente sucesso social. Significa sobretudo vencermos nossas más inclinações e darmos um salto de qualidade em relação ao nosso espírito.


    Celina Côrte Pinheiro


    Escrito por Júlio Cesar Góes às 15h39
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