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    Ninho do Gavião da Serra


    VIAGEM

    Foto de Júlio Cesar Góes. Pacoti, CE.



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h20
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    UM DEUS INEXISTENTE

    Foto de Júlio Cesar Góes. Pacoti, CE.

     

    o Deus em que deveria crer não existe ainda,
    a culpa não é minha, é do Deus que ainda não existe.


    Carlos Heitor Cony
    FSP, 27 de novembro de 2009



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 21h06
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    PARTÍCULAS ELEMENTARES

    O início da minha carreira em física de partículas elementares foi em um laboratório no Cern, em Genebra, onde tinha um acelerador de partículas que faz essas radiações. E eu pude fazer observações num detector chamado câmara de bolhas, que ainda existia na época, e que permite visualizar por efeito macroscópico de ampliação o caminho de uma partícula, permite identificar essas partículas, medir e calcular as suas características e depois saber o que acontece nessa região da constituição da matéria. Quando eu vi isso – para mim até então as partículas eram uma abstração –, quando de repente eu vi os perpasses que permitem saber que essas radiações têm efeitos materiais, foi um pouco o meu caminho de Damasco, como caminho da revelação para São Paulo. Só que a minha revelação não foi de Deus, mas da realidade íntima da matéria.

     

    Michel Paty

    Revista Pesquisa FAPESP Online - Novembro 2009



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 17h42
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    TROCAS

    Foto de Júlio Cesar Góes. Feira de São Bento, Cascavel, CE.



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h12
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    VENDE-SE PEIXE SECO

    Foto de Júlio Cesar Góes. Feira de São Bento, Cascavel, CE.



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 22h22
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    REBANHOS

    Afinal de contas, que idade nos pertence mais que a infância, na qual, verdadeiramente, dependemos dos outros? Tudo é mais longo na infância. As férias nos parecem deliciosamente eternas. Os horários de aula também. Embora sujeitos à escola e sobretudo à família, temos nessa época da vida mais liberdade ante o que nos amarra do que em qualquer outra. Isso se deve, me parece, a que a liberdade na infância é idêntica à imaginação, e, como nesta tudo é possível, a liberdade para ser algo mais que a família e algo mais que a escola voa mais alto e nos permite viver mais separados que nas idades em que temos de nos conformar para sobreviver, ajustar-nos aos ritmos da vida profissional e submeter-nos a regras herdadas e aceitas por outra espécie de conformismo geral. Éramos, quando crianças, magos sigulares. Seremos, quando adultos, rebanhos.


    Trecho de "A Verdade e a Fortuna"
    de Carlos Fuentes
    Tradução de Carlos Nougué



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 21h52
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    O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES

     

    "não se pode fazer amor o dia inteiro,
    por isso inventaram o trabalho"

     "As pernas das mulheres são compassos
     que percorrem o globo terrestre em todos os sentidos
     dando-lhe equilíbrio e harmonia"  

    "O homem que amava as mulheres" (1977)
    Direção de François Truffaut



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h06
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    COMER

    Figos frescos

     

    Jamais provou uma iguaria, jamais degustou uma iguaria quem sempre a comeu com moderação. Assim se conhece talvez o prazer da comida, mas nunca a avidez por ela, o desvio do caminho plano do apetite, que leva à mata virgem da comezaina. É na comezaina, a saber, que estes dois se reúnem: a imoderação do desejo e a monotonia com que ele se sacia. Comer, isto significa antes de tudo: comer radicalmente. Não há dúvida de que isso alcança mais profudamente a coisa devorada que o prazer. Por exemplo, quando alguém dá uma dentada na mortadela como se fosse pão, se chafurda no melão como numa almofada, lambe caviar de papel farfalhante e sobre uma cuia de queijo Edam se esquece de tudo o mais que existe na Terra para comer.


    Walter Benjamin



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 18h45
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    PRELÚDIO




    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h36
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    PERGUNTAS DIFÍCEIS

    - Defendes pretos, Atticus? - perguntei-lhe eu nessa mesma tarde.- Claro que sim. Não digas preto, Scout. É feio.
    - Mas`é o qu`toda a gente diz na escola.
    - Então, a partir de agora passa a ser toda a gente, menos uma pessoa...
    - Mas então, se não queres que cresça a falar desta maneira, por que é que me mandas p`ra escola?



    Harper Lee, em "Por favor não matem a cotovia"



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h07
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    SMALL WORLD

    Foto da planta 'Arabidopsis thaliana', tirada por Heiti Pavez, da Universidade de Tecnologia da Estônia, 

    vencedora do concurso Nikon Small World que premia microfotografias.



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 22h14
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    NUESTRO PEQUEÑO MUNDO

    Foto de Isabel Muñoz


    En guerra. Entre 250.000 y 300.000 menores de 15 años están actualmente vinculados a fuerzas armadas o grupos armados, según Naciones Unidas. En la última década, las guerras se han cobrado la vida de más de dos millones de niños y niñas, y han dejado un millón de huérfanos. En Uganda alrededor de 25.000 menores y mujeres han sido hechos cautivos por los rebeldes desde finales de los años ochenta. Agnes recuerda con horror sus años con la guerrilla. "Pasé hambre y mucho miedo". Posa con todo lo que tiene: su ropa en una maleta.

     

    EL PAÍS, domingo 15 de noviembre de 2009.

     



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h19
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    EL CIRCO

    Dos atletas saltan de un lado a otro de mi alma
    lanzando gritos y bromeando acerca de la vida:
    y no sé sus nombres. Y en mi alma vacía escucho siempre
    cómo se balancean los trapecios. Dos
    atletas saltan de un lado a otro de mi alma
    contentos de que esté tan vacía.
    Y oigo
    oigo en el espacio sonidos
    una y otra vez el chirriar de los trapecios
    una y otra vez.
    Una mujer sin rostro canta de pie sobre mi alma,
    una mujer sin rostro sobre mi alma en el suelo,
    mi alma, mi alma: y repito esa palabra
    no sé si como un niño llamando a su madre a la luz,
    en confusos sonidos y con llantos, o bien simplemente
    para hacer ver que no tiene sentido.
    Mi alma. Mi alma
    es como tierra dura que pisotean sin verla
    caballos y carrozas y pies, y seres
    que no existen y de cuyos ojos
    mana mi sangre hoy, ayer, mañana. Seres
    sin cabeza cantarán sobre mi tumba
    una canción incomprensible.
    Y se repartirán los huesos de mi alma.
    Mi alma.
                   Mi hermano muerto fuma un cigarrillo junto a mí.

     

     

    Leopoldo María Panero

    "Poesía" 1970 - 1985



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 23h32
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    APÓS A CONCLUSÃO

    Com freqüência se tem imaginado a gênese das grandes obras na imagem do nascimento. Esta imagem é dialética; abrange o processo por dois aspectos. Um tem a ver com aconcepção criativa e se refere, no temperamento, ao feminino. Este fator feminino se esgota com a conclusão. Dá vida à obra e então se extingue. O que morre no mestre com a criação concluída é aquela parte nele em que a obra foi concebida. Mas eis que o conclusão da obra não é uma coisa morta - e isso leva ao outro aspecto do processo. Ele não é alcançável pelo exterior; o polimento e o aprimoramento não podem extraí-lo à força. Ele se consome no interior da própria obra. Aqui também se pode falar de um nascimento. Ou seja, em sua conclusão, a criação torna a parir o criador. Não segundo a sua feminilidade,na qual ela foi concebida, mas no seu elemento masculino. Bem-aventurado, o criador ultrapassa a natureza: pois esta existência que ele recebeu, pela primeira vez, das profundezas escuras do útero materno, terá de agradecê-la agora a um reino mais claro. A sua terra natal não é o lugar onde nasceu,mas, sim, ele vem ao mundo onde é asua terra natal. É o primogênio masculino da obra, que foi por ele cancebida.


    Walter Benjamin



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 20h12
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    FEIJÃO ESCORRIDO

    Foto de Júlio Cesar Góes. Feira de São Bento, Cascavel, CE.



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h04
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    DEVEDORES ETERNOS

    Quando deitados na esteira ao amanhecer, eu gostava de lhe fazer perguntas meio capciosas, para ver se a fazia cair na lembrança ou na previsão. Que outros aeroportos você tomou de assalto, Lucha? Toluca, Guanajuato, Aguascalientes? O aeroporto do sol, Saviour, respondia-me. Você nunca teve um emprego, Lucha? Sou uma desocupada. Não preciso trabalhar. Você não se sente excluída da sociedade? Eu posso invadir a sociedade antes que a sociedade me invada. Você tem algum conflito interno, Lucha? Eu estou brigada com o mundo. O que você recrimina na sociedade? Não quero ser devedora perpétua. Isso somos na sociedade. Devedores eternos.

     

    Extraído de "A VONTADE E A FORTUNA"
    de Carlos Fuenetes
    Tradução de Carlos Nougué



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 22h57
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    PENSADOR

    Foto de Júlio Cesar Góes. Feira de São Bento, Cascavel, CE.



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 20h41
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    BREAK THE BERLIN WALL (20 YEARS)

    Berlin Wall mural, East Side Gallery. Photographer: Martin Moos

     

    Berlim hoje é celebrada por sua posição de vanguarda na cultura e na música, pelo design e pela arte vibrantes, e também como um ponto de encontro brusco e atraente entre o oeste e o leste. Tudo isso se justifica, mas para mim Berlim também é fascinante como centro de algo mais: o tédio revolucionário. Permitam-me explicar. Há 20 anos, em Berlim, o muro separava duas escolas distintas de tédio.
    Do lado oriental existia a variedade comunista, definida por grandes labirintos de jaulas de concreto pré-fabricado para seres humanos, fábricas sujas despejando poluentes no ar e complexos monumentais de museus e teatros dedicados a uma visão sufocante da alta cultura. Para os "ost-berliners", apenas o terror induzido pela Stasi e o consumo copioso de álcool eram capazes de animar as coisas.
    Já o lado ocidental, por sua vez, abrigava algo de diferente: o tédio do consumismo bovino do pós-guerra. A melhor representação disso era a famosa Kaufhaus des Westens, a maior loja de departamentos da Europa [continental], que oferecia muitas e muitas... coisas. Sim, de fato: na KaDeWe havia queijo. E carne. E roupas. Etc. Apenas um punhado de filhos mimados da burguesia, brincando de revolução, e a maior população de drogados da Europa serviam para animar um pouco as coisas.
    Mas então o muro caiu e o tédio do leste foi libertado para que pudesse se fundir com o do oeste. Isso também aconteceu em outras partes da Europa oriental, mas só em Berlim havia duas escolas em tão perfeito equilíbrio, interconectadas de forma tão íntima. A apodrecida infraestrutura do comunismo se misturava aos chochos arranha-céus novos em estilo pseudoamericano, na Potsdamer Platz. A nostalgia do comunismo e a globalização descontrolada se davam as mãos; e todos marcharam unidos para um admirável mundo novo de reciclagem, nudismo, música tecno minimalista e a pornografia mais vil do planeta.
    Quem fica na cidade por tempo demais não demora a desconfiar que até a cena de arte "radical" é rigidamente conformista e "segura". Mas não pensem que estou me queixando. Amo Berlim. É um vislumbre do progresso em vidro e concreto, no qual os cientistas estão criando uma visão utópica de um "tediofuturo" diversificado, mas ordeiro, que um dia poderá triunfar em toda a Europa.



    DANIEL KALDER



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 07h50
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    A LUA CARAMELADA

    Lucinha abriu a janela e olhou para o céu. Lá estava a lua, mas não branquinha e brilhante como de costume. Tinha cor de caramelo e mais parecia uma grande bolacha de mel, daquelas bem tostadinhas que ela apreciava comer.

    - Ué, o que aconteceu? Lua, por que você mudou de cor?

    A lua, embora tão distante, respondeu:

    -  Ah, Lucinha, dei uma saidinha para brincar, enquanto o Sol cuidava de dar luz ao mundo. Tomei muito sol e fiquei bronzeadinha.

    - Bronzeadinha? Você está caramelada! Bastava você usar um protetor solar para se proteger e isto não teria acontecido...

    - Que nada, Lucinha! Estou adorando esta minha nova cor, tão “fashion”. Um verdadeiro arraso!

    - Não sei, não! Acho que as pessoas vão estranhar sua nova cor... Sinceramente,  prefiro você branquinha como sempre. Além disso, mamãe me ensinou a sempre usar protetor solar para me proteger. Ela sempre diz que tomar banho de sol sem proteção é perigoso.

    - Perigoso? Por quê?

    - Os raios solares podem provocar queimaduras graves na pele. Além disso, podem causar câncer de pele.

    - Você tem certeza?

    - Pelo menos é o que a mamãe diz... Eu também vi na televisão um alerta sobre os perigos do sol em nossa pele.

    - Sabe, Lucinha, eu acho que não corro nenhum perigo. Eu não  tenho pele!?  O que eu tenho é uma casca grossa, cheia de montanhas e crateras! – e deu uma boa risada

    -Lucinha também riu  da resposta e acrescentou:

    - Lua, lua, se você não tem pele, então não se queimou. Eu acho que esta sua cor de caramelo é porque você se esqueceu de tomar banho depois de brincar...

    A lua parece ter-se zangado com o comentário de Lucinha e correu para se esconder. Dali a pouco caiu uma chuva forte que durou mais de uma hora. Quando a chuva parou, a lua surgiu novamente, agora branquinha como leite. Lucinha é capaz de jurar que a lua realmente estava suja e ficou limpinha com a chuva. A lua garante que não foi nada disso. E você, o que pensa?



     Celina Côrte Pinheiro



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h09
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    FLORES

     

    Olhei até ficar cansado
    De ver os meus olhos no espelho
    Chorei por ter despedaçado
    As flores que estão no canteiro
    Os punhos e os pulsos cortados
    E o resto do meu corpo inteiro
    Há flores cobrindo o telhado
    E embaixo do meu travesseiro
    Há flores por todos os lados
    Há flores em tudo que eu vejo

    A dor vai curar estas lástimas
    O soro tem gosto de lágrimas
    As flores têm cheiro de morte
    A dor vai fechar estes cortes
    Flores
    Flores
    As flores de plástico não morrem

     

    Titãs



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 23h40
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    O SÉCULO DE LÉVI-STRAUS (1909-2009)

    O antropólogo Claude Lévi-Strauss, aos 97 anos, em 2005, recebeu o Prêmio Internacional Catalunha, na Espanha. Declarou na ocasião: "Fico emocionado porque estou na idade em que não se recebem nem se dão prêmios, pois sou muito velho para fazer parte de um corpo de jurados. Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele - isso é algo que sempre deveríamos ter presente"



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h04
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    PESADELOS

    "Acredito que o pesadelo tenha um sabor especial
    que não se parece com o horror que sentimos na vigília,
    e que poderia ser uma prova de que o inferno existe,
    de que entrevemos algo, mais além de toda experiência humana."



    Extraído de "SOBRE O SONHO E OUTROS DIÁLOGOS"
    Autores: Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari
    Tradução: John O'Kuinghttons



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h08
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    MORTE

    Ponto final. Já pensou na eternidade em corpo perecível? O retrato de Dorian Gray é a metáfora... O enigma. O desafio. Sustentar o insustentável? A leveza da vida, o dia a dia, o badalar do sino, o brilho da estrela cadente iluminando um átimo de segundo. É a passagem, a porta que se abre e se fecha, o som que prossegue mesmo sem ser ouvido. A morte é a libertação do lembrável. Ninguém suportaria o peso da recordação. A morte é a outra face do perecível. Tudo é eterno, enquanto dura e nada dura eternamente.

    Adísia Sá



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 08h11
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    SAGRAÇÃO DOS OSSOS

    Considerai estes ossos

    - tíbios, inúteis, apócrifos -

    que sob a lápide dormem

    sem prédica que os conforte.

    Considerai: é o que sobra

    de quem lhes serviu de invólucro

    e agora já não se move

    entre as tábuas do sarcófago.

    Dormem sem túnica ou toga

    e, quando muito, um lençol

    lhes cobre as partes mais nobres

    (as outras quedam-se à mostra,

    não dos que estão aqui fora,

    mas dos ácidos que os roem

    ou do lodo que lhes molha

    até a polpa esponjosa).

    De quem foram tais despojos

    tão nulos e sem memória,

    tão sinistros quanto inglórios

    em seu mutismo hiperbólico?

    Onde andaram? Em que solo

    deitaram sêmen e prole?

    Foram químicos, astrólogos,

    remendões, físicos, biólogos?

    Ou nada foram? Que importa

    não haja um só microscópio

    lhes cevado a magra forma

    ou a mais ínfima nódoa?

    Existiram. Esse é o tópico

    que aqui, afinal, se aborda.

    E eis o faço porque, ao toque

    de meus dedos em seus bordos,

    tais ossos como que imploram

    a mim que os chore e os recorde,

    que jamais os deixe à corda

    da solidão que os enforca,

    nem à sanha do antropólogo

    que os vê, não como o espólio

    do que foi amor ou ódio,

    lascívia, miséria e glória,

    mas como a lívida prova

    de que o sonho foi-se embora

    e dele só resta a escória

    numa urna museológica.

    E então me pergunto, a sós:

    por que desdenhar o outrora

    se nele é que ecoa a voz

    do que, no futuro, aflora?

    Não bastaria uma rótula

    para atestar esse cogito,

    ergo sum, aqui e agora,

    alheio a qualquer prosódia

    ou língua em que se desdobre

    essa falácia que aposta

    no fundo abismo sem orlas

    entre o que vive

    e o que morre?

    Baixa uma névoa viscosa

    sobre as pálpebras da aurora.

    E ali, de pé, sob a estola

    de um macabro sacerdote,

    sagro estes ossos que,

    póstumos,

    recusam-se à própria sorte,

    como a dizer-me nos olhos:

    a vida é maior que a morte.

     

    Ivan Junqueira



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 08h08
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