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    Ninho do Gavião da Serra


    O AQUÁRIO

    "Red Star" (1949), by Carmen Herrera



    Entre as pessoas com quem minha família convive, todas seguiram o mesmo caminho: uma juventude tentando rentabilizar sua inteligência, espremer como um limão o filão dos estudos e garantir uma posição de eleite, e depois uma vida inteira a se indagar com pavor por que essas esperanças desembocaram numa vida tão inútil. As pessoas crêem perseguir as estrelas e acabam como peixes-vermelhos num aquário. Fico pensando se não seria mais simples ensinar desde o início às crianças que a vida é absurda. Isso privaria a infância de alguns bons momentos, mas faria o adulto ganhar um tempo considerável – sem falar que, pelo menos, seríamos poupados de um traumatismo, o do aquário.

    Muriel Barbery, em “A elegância do ouriço”
    Tradução de Rosa Freire d’Aguiar



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 07h22
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    O ABISMO DE ONAN

    Marc Chagall - The Bride


    Já sei o que vais dizer, irmãozinho. Vais dizer que pensaste muito sobre aquilo que te contei e chegaste à conclusão de que sou um pecador. Um filho indigno de nosso pai, um traidor de nossa gente. Se é isso o que tens para me dizer, poupa tua saliva: dessas coisas eu próprio me acuso todos os dias. Sim, sou um pecador, é o que me digo. Sim, sou filho indigno, sou traidor, sou um monstro até. Sou tudo isso, e continuarei sendo tudo isso. Porque não vou parar, Shelá, não vou parar de fazer o que faço com aquela mulher, a Tamar. E sabes por que não vou parar? É por causa da vingança, claro, mas é também porque agora estou gostando disso, estou gostando do jogo. Sim, Shelá, é um jogo. Um jogo de gato e rato. Às vezes eu sou o gato, às vezes o rato. Com ela acontece o mesmo. Quer me aprisionar, Shelá. A vagina dela é uma armadilha, uma ratoeira. Dizem que, em regiões distantes, existem mulhers com dentes na vagina, dentes que trituram qualquer pênis. A vagina dela é pior, porque dali não se escapa, nem mesmo com o pênis devorado. Ali eu ficaria preso, e pelo resto da vida. Sabe disso, a Tamar. E faz o possível para me prender. Enquanto temos relações ela me abraça, me beija, murmura ternas palavrinhas ao meu ouvido – e me segura, Shelá. Aquelas mãos dela, Shelá, aquelas mãos tão delicadas, tão macias, não são mãos, são tenazes, como eu constato todas as noites. E as unnhas não são unhas, são garras. Quando ela me abraça preciso ficar alerta, Shelá. É como se eu estivesse à beira de um abismo: qualquer descuido, e rolo lá para baixo. É por isso que derramo meu sêmen na terra.

    Trecho de “Manual da paixão solitária”, de Moacyr Scliar



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h07
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    HELENA E OS GUERREIROS

    “É uma rameira de marca. Eu não daria por ela nem um prato de feijão. Sabeis, rapazes, que é que eu desejo para o tonto do Menelau? Que ganhemos essa guerra de uma vez para que ele receba a mulher de volta. A beleza de Helena não passa de lenda, impostura e um pouco de pó de arroz. (...) Nós, gregos, lutamos, primeiro, para que a raposa velha do Agamêmnon possa encher as burras com nosso butim; segundo, para que o janotinha do Aquiles possa saciar sua imensa sede de glória; terceiro, para que o vigarista do Odisseu possa nos escorchar fornecendo o armamento; por fim, lutamos para que um bardo vulgar e corrupto, o tal de Homero, ou lá como se chame, possa glorificar, por uns trocados sujos, os maiores traidores da nação grega”.


    Trecho de "Histórias apócrifas", de Karel Capek
    Tradução de Aleksandar Jovanovic



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h14
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    O MUNDO É DOS FRACOS

    "Os que sabem fazer fazem,
     os que não sabem fazer ensinam,
     os que não sabem ensinar ensinam aos professores,
     e os que não sabem ensinar aos professores fazem política."

    O que essa frase quer dizer não é que os incompetentes têm lugar ao sol, é que nada é mais duro e injusto do que a realidade humana: Os homens vivem num mundo em que são as palavras, e não os atos, que têm poder, em que a competência última é o domínio da linguagem. É terrível, porque na verdade somos uns primatas programados para comer, dormir, nos reproduzir, conquistar e tornar seguro o nosso território, e os mais dotados para isso, os mais animais entre todos nós, são sempre passados para trás pelos outros, por esses que falam bem, quando, na realidade, seriam incapazes de defender seu jardim, de trazer um coelho para o jantar ou de procriar corretamente. Os homens vivem num mundo em que são os fracos que dominam. É uma injúria terrível à nossa natureza animal, um gênero de pervesão, de contradição profunda.


    Trecho de "A elegância do ouriço", de Muriel Barbery
    Tradução de Rosa Freire d´Aguia
    r



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 10h49
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    O APANHADOR

    “(...) Mas eu nem estava ouvindo. Estava pensando noutro troço, uma coisa amalucada.
    - Você sabe o quê que eu quero ser!-perguntei a ela.
    - Sabe o que é que eu queria ser? Se eu pudesse fazer a merda da escolha?
    - O quê? Pára de dizer nome feio.
    - Você conhece aquele cantiga: ‘Se alguém agarra alguém atravessando o campo de centeio!’
    - É se ‘alguém encontra alguém’-ela disse. É dum poema do Robert Burns.
    - Eu sei que é dum poema do Robert Burns.
    Mas ela tinha razão. É mesmo ‘Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio’. Mas eu não sabia direito.
    - Pensei que era ‘Se alguém agarra alguém’--falei.--Seja lá como for, fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto--quer dizer, ninguém grande-a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”



    Trecho de "O Apanhador No Campo de Centeio"
    de J. D. Salinger



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 20h38
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    A ÁRVORE DO DINHEIRO

    Era uma vez uma cidade onde reinava a paz. As praças e ruas eram bem arborizadas e a sombra maravilhosa das árvores refrescava o calor do verão. Certo dia, porém, uma das árvores amanheceu infeliz. Achava pouco produzir apenas a sombra para as pessoas. Queria mais! E não bastavam flores e frutos. Seu desejo era tornar-se a árvore mais bonita e cobiçada da região. Tanto pediu que seu desejo foi atendido. No dia seguinte, amanheceu coberta de cédulas de 100 reais. As outras árvores se entreolharam, sem nada entender. Ela estava diferente e as outras árvores, pela primeira vez, sentiram inveja. Este é um sentimento que nos destrói por dentro, você não acha?

    Pouco tempo depois, Gabriel passou pela rua, avistou a árvore, e não acreditou no que via, mas resolveu apanhar uma nota e levá-la ao banco para verificar se era falsa. O dinheiro era verdadeiro! Gabriel contou para Felipe, que contou para Giulia, que contou para todo mundo. A árvore do dinheiro viu-se rodeada por muita gente, desejosa de apanhar o maior número de cédulas possível. Ela se sentiu orgulhosa, mas pouco depois já estava com medo, pois todos queriam apanhar a maior quantidade de dinheiro. Briga com socos e pontapés, empurra-empurra, gritos desesperados, uma confusão de dar dó! Os mais ágeis subiram na árvore e foram até aqueles galhos mais finos para rechear os bolsos com notas de 100 reais. No final do dia, a pobre árvore mais parecia uma louca descabelada. Com galhos quebrados e sem nenhuma folha, sentia-se miserável! Suas amigas continuavam frondosas, enquanto ela não servia sequer para dar sombra ou despertar inveja.

    A antiga paz da cidade desaparecera. A ambição encontrou morada no coração do povo. Confusão, brigas e até furtos aconteceram na cidade que deixara de ser pacífica. Como não mais encontraram o dinheiro fácil, as pessoas acabaram voltando à sua antiga vida e, pouco a pouco, a paz voltou a reinar na cidade. A árvore do dinheiro passou uma semana a chorar. Suas lágrimas sentidas fizeram com que, aos poucos, se recobrisse de folhas. Ficou tão linda e verdinha como as companheiras, porém agora mais consciente de que devemos ser felizes com o que temos e somos. A sombra era o grande bem que a árvore produzia para aquele povo feliz. Agora, não desejava nada mais do que isso.



    Celina Côrte Pinheiro



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 18h44
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    EL CAGANER



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 22h38
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    O GRANDE ESQUECIMENTO COLETIVO

    Jericó tinha razão: Talvez estejamos sempre num grande cruzamento de caminhos, numa praça circular da qual partem avenidas que por sua vez conduzem, cada uma, a outras tantas praças das quais partem outras tantas avenidas. Seis, trinta e seis, duzentas e dezesseis, infinitas praças, infinitas avenidas para uma vida finita à qual só garante direção o que fazemos com as mãos, com as idéias, com as palavras, com as formas, cores, sons, não o que fazemos com o sexo, a relação social, a vida familiar: estas evaporam e ninguém recorda ninguém depois da terceira ou quarta geração. Quem era seu bisavô, como se chamava seu tataravô, que rosto tinha seu antepassado mais remoto, o que viveu antes da fotografia, o que não teve a sorte de ser pintado por Rubens ou Velázquez? Somos parte da distribuição do grande esquecimento coletivo, um catálogo telefônico sem números, um dicionário de páginas em branco, onde nem sequer persistem as impressões digitais dos que as manusearam...

     
    Extraído de "A VONTADE E A FORTUNA"
    de Carlos Fuentes
    tradução: Carlos Nougué



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 01h08
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    SEM SE PREOCUPAR COM NADA

    Isso nos obriga a conhecer nossos limites internos. Você se dá conta de que a maior parte dos seres humanos nunca se faz a sério a pergunta: Quem sou eu? Quais são meus limites? Por quê? Poque a família e a sociedade lhes traçaram o caminho e as fronteiras. Por aqui, rapaz, não se afaste do caminhozinho, olhe tão longe como quiser, mas não olhe para a direita nem para a esquerda. Olhos fixos no horizonte que lhe demos porque pensamos em você, meu filho, e queremos o melhor para você, não pense em nada, tudo está pensado de antemão, garotinho, é para seu bem, não se desvie, não se aventure, não se afaste de um destino que você não merece saber com independência, para que, rapaz, se nós já o preparamos com antecedência? Nós lhe preparamos o futuro como se faz uma cama, aqui os travesseiros, ali os cobertores, deite e durma, menino, não desfaça a cama, olhe que nos custou muito fazê-la e mantê-la preparada para você dormir tranquilo, durma e durma e durma, fedelho, garoto, menino, rapaz, sem se preocupar com nada.


    Extraído de "A VONTADE E A FORTUNA"
    de Carlos Fuentes
    tradução: Carlos Nougué



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 23h34
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    É VERDADE PORQUE É INCRÍVEL

    Tudo se sabe. Tudo se vê. Já não haverá armários nem, muito menos, esqueletos nos armários. Devemos cuidar ao máximo dos resíduos de nossa vida privada, invadiada pelo olho de uma câmara que é hoje - a câmara - o Grande Inquisidor. E o que faz o Grande Inquisidor de Dostoievski? Salvar a fé com o que a ofende. Usar as armas do poder mais concreto para defender o poder mais espiritual: a Fé.

    A Fé - Lembrei-me das velhas conversas com o padre Filopáter - consiste em dizer e pensar: "É verdade porque é incrível". Pode então haver uma fé que se proponha como crível graças à existência natural de objetos que o comprovem? Mas não se inscreve esta fé no projeto do progresso como seguro de vida universal?: vamos sempre para frente, nada nos deterá, o desenvolvimento humano é inevitável e ascendente. Até que um forno crematório, um campo de concentração, um Auschwitz, um Gulag, um Abu Ghraib, um Guantánamo nos demostrem o contrário...



    Extraído de "A VONTADE E A FORTUNA"
    de Carlos Fuentes
    tradução: Carlos Nougué



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 00h05
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    O INSTANTE DO QUE FOMOS E O QUE SEREMOS

    O que contém este movimento do instante que abarca o que fomos e o que seremos? Por um lado, instinto. Pelo outro, inteligência. As pessoas, diante do ato de criação, diante de Michelangelo ou Rembrandt, Beethoven ou Bach, Shakespeare ou Cervantes, falam de inspiração. Wilde disse que a criação é dez por cento inspiração e noventa por cento transpiração. Ou seja: criar supõe trabalhar, e tanto Jericó como eu pensamos que a produção de talentos frustrados na América Latina é tão grande como a produção de banana porque nossos gênios estão esperando a "inspiração" e gastam o traseiro, esperando-a, em bares e cafés. Os dez por cento, no entanto, estão esperando pacientemente ao lado dos noventa que podem fazer-se presentes, como não?, num bar ou café, embora sejam mais bem recebidos num quarto o mais despovoado possível, com pena, máquina ou computador à mão e um esforço concentrado, o que também pode dar-se, além do mais, num avião, num hotel ou numa praia. O texto não admite pré-texto.



    Extraído de "A VONTADE E A FORTUNA"
    de Carlos Fuentes
    tradução: Carlos Nougué



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 21h02
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    ACTUAR

    "actuar no es otra cosa que cambiar yo misma, cambiar lo que siento o lo que pienso, pero ese cambio que tanto deseo no es suficiente con desearlo para obtenerlo. No puedo hacerlo sino indirectamente. Sufro, deseo, dudo, ignoro; es una de las maneras de decir que lo que soy no me satisface y que esto ignora mi autorización para ser yo. Lo que soy, lo padezco. Sin embargo tengo poder sobre lo que padezco, mi definición de alguna manera de lo que es actuar: existo en la medida que puedo. (...) Mañana es esa persona que no puedo cambiar inmediatamente. Esa relación entre el presente y el futuro es lo que constituye el tiempo".


    Simone Weil



    Escrito por Júlio Cesar Góes às 13h42
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